{"id":204,"date":"2010-03-11T02:11:27","date_gmt":"2010-03-11T02:11:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/?page_id=204"},"modified":"2019-12-25T18:58:19","modified_gmt":"2019-12-25T18:58:19","slug":"o-barao-foi-para-o-boneco","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/o-barao-foi-para-o-boneco\/","title":{"rendered":"O Bar\u00e3o foi para o boneco"},"content":{"rendered":"\n<p>Por ocasi\u00e3o do primeiro centen\u00e1rio do nascimento de Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Branquinho da Fonseca, em cujo nome \u00e9 organizado o\u00a0 Pr\u00e9mio Branquinho da Fonseca, a Gulbenkian convidou os quatro autores vencedores das duas edi\u00e7\u00f5es do pr\u00e9mio &#8211; entre os quais eu &#8211; a escreverem um conto que tivesse como pano de fundo a novela &#8220;O Bar\u00e3o&#8221;. Inicialmente aterrado com o projecto, que n\u00e3o se propiciava de todo a espadas, magia e afins coisas sobre as quais j\u00e1 estava habituado a escrever, teria sido rude e extremamente ingrato da minha parte recusar, pelo que engoli em seco e fiz que sim com a cabe\u00e7a. Ap\u00f3s ler &#8220;O Bar\u00e3o&#8221;, mais aflito ainda fiquei, pois sentia-me como um professor de Ingl\u00eas destacado para dar uma aula de substitui\u00e7\u00e3o de Franc\u00eas. Nada mais pude fazer al\u00e9m de deixar a imagina\u00e7\u00e3o correr, ver onde esta me levava, e rezar para que n\u00e3o acabasse por vender gato por lebre a quem me tinha requisitado a contribui\u00e7\u00e3o. O resultado foi &#8220;O Bar\u00e3o foi para o Boneco&#8221;, um conto que, por falta de uma defini\u00e7\u00e3o melhor, lhe chamarei apenas isso. N\u00e3o foi nem pouco mais ou menos t\u00e3o doloroso ou custoso quanto eu esperara, e ao mesmo tempo foi estranhamente libertador. Em vez de um professor de Ingl\u00eas, senti-me um m\u00fasico de jazz com carta branca para improvisar, homenageando a obra de Branquinho da Fonseca atrav\u00e9s de pormenores e refer\u00eancias ao longo do texto.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"734\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/O_Barao.jpg\" alt=\"\" data-id=\"2541\" data-full-url=\"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/O_Barao.jpg\" data-link=\"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/o_barao\/\" class=\"wp-image-2541\" srcset=\"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/O_Barao.jpg 734w, https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/O_Barao-215x300.jpg 215w\" sizes=\"auto, (max-width: 734px) 100vw, 734px\" \/><figcaption class=\"blocks-gallery-item__caption\">O Bar\u00e3o<\/figcaption><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"734\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/O_Boneco.jpg\" alt=\"\" data-id=\"2822\" data-full-url=\"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/O_Boneco.jpg\" data-link=\"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/o-barao-foi-para-o-boneco\/o_boneco\/\" class=\"wp-image-2822\" srcset=\"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/O_Boneco.jpg 734w, https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/O_Boneco-215x300.jpg 215w, https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/O_Boneco-200x279.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 734px) 100vw, 734px\" \/><figcaption class=\"blocks-gallery-item__caption\">O Boneco<\/figcaption><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O Bar\u00e3o era um homem alto, embora passasse a maior parte do tempo sentado sempre que o via, confortavelmente reclinado na sua cadeira dilecta com uma postura irrepreens\u00edvel que certamente j\u00e1 lhe custava aos ossos e \u00e0s articula\u00e7\u00f5es. Embora raramente sa\u00edsse, vestia sempre um impec\u00e1vel fato e gravata que lembravam um certo quadro de Magritte e mantinha os sapatos sempre engraxados; por vezes chegava mesmo a usar chap\u00e9u dentro de casa, como se estivesse num caf\u00e9 ou se quisesse unicamente manter fiel \u00e0 pintura do belga. Possu\u00eda uma constitui\u00e7\u00e3o enxuta, n\u00e3o sendo magro nem tendo nada de gordo, e ostentava ossos bem definidos na face. Tinha um grande nariz de narinas frementes, m\u00e3os venosas, manchadas e de dedos compridos, uma testa e calva maculadas, e penetrantes olhos cinzentos que de alguma forma ainda conseguiam ler \u00e0 luz de candeia naquela sala escura. O seu cabelo era conservadoramente aparado e inteiramente branco, mas as sobrancelhas preservavam um tom escuro que dava um ar feroz e formid\u00e1vel ao seu olhar, esse pesado de preconceito e pleno de presun\u00e7\u00e3o. Era um homem de convic\u00e7\u00f5es firmes, o Bar\u00e3o, de saberes emp\u00edricos e teorias infundadas, e as suas opini\u00f5es solidificaram ao longo de v\u00e1rios obstinados anos sem advers\u00e1rios dignos para as contrapor, provavelmente devido \u00e0 falta de paci\u00eancia destes mesmos.<\/p><p>N\u00e3o os culpava, pois sabia o qu\u00e3o irritante o Bar\u00e3o podia ser. Os meus primeiros meses com ele haviam sido dif\u00edceis, pois eu fora visto como pouco mais que um intruso no seu dom\u00ednio, um plebeu indigno de respirar o nobre p\u00f3 da sua carpete, um invasor &#8220;l\u00e1 de fora&#8221; vindo para quebrar o fr\u00e1gil equil\u00edbrio da sua torre de marfim. Era uma pessoa que gostava de pregar aos peixes, mas que n\u00e3o apreciava que os peixes lhe entrassem dentro de casa, pois era muito cioso do seu espa\u00e7o pessoal e n\u00e3o s\u00f3. De in\u00edcio limitava-se a ignorar-me, recusando-se terminantemente a ser levado em passeios e a trocar palavras comigo\u2026 ali\u00e1s, o que ele fazia n\u00e3o era bem ignorar-me; era mais o facto de mal reconhecer a minha exist\u00eancia. Falava na minha presen\u00e7a, isso sim, mas era como se eu l\u00e1 n\u00e3o estivesse. N\u00e3o tendo os tempos modernos em grande conta, o Bar\u00e3o tinha por h\u00e1bito lan\u00e7ar-se em diatribes contra aquilo que me parecia ser a condi\u00e7\u00e3o humana dos presentes dias, ou o lugar do indiv\u00edduo no mundo.<\/p><p>Cada qual deve poder assumir a sua pr\u00f3pria verdade e sensibilidade, dessa forma sustentando um individualismo subjectivo descomprometido com o social e o pol\u00edtico &#8211; era o tipo de afirma\u00e7\u00f5es que fazia do nada. Eu tentaria responder ou refutar, mas cada palavra minha era ignorada em favor de um outro axioma qualquer que lhe ocorresse. E ocorriam-lhe com frequ\u00eancia, sendo substitu\u00eddos pelo ocasional aforismo quando a vontade de falar come\u00e7ava a escassear.<\/p><p>N\u00e3o me esforcei por a\u00ed al\u00e9m para estreitar a nossa rela\u00e7\u00e3o &#8211; ele continuava a falar sozinho na minha presen\u00e7a e eu continuava a responder-lhe sem que a cortesia me fosse retribu\u00edda &#8211; e hoje, em retrospectiva, julgo que tenha sido isso mesmo o que levou ao nosso primeiro di\u00e1logo. Isto por um motivo muito simples.<\/p><p>O Bar\u00e3o falava para o boneco.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-button aligncenter is-style-outline is-style-outline--2\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/outros-mundos\/\">Voltar<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por ocasi\u00e3o do primeiro centen\u00e1rio do nascimento de Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Branquinho da Fonseca, em cujo nome \u00e9 organizado o\u00a0 Pr\u00e9mio Branquinho da Fonseca, a Gulbenkian convidou os quatro autores vencedores das duas edi\u00e7\u00f5es do pr\u00e9mio &#8211; entre os quais eu &#8211; a escreverem um conto que tivesse como pano de fundo a novela &#8220;O Bar\u00e3o&#8221;. 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