{"id":1706,"date":"2016-02-12T17:13:48","date_gmt":"2016-02-12T17:13:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/?p=1706"},"modified":"2016-02-12T17:14:23","modified_gmt":"2016-02-12T17:14:23","slug":"super-homem-contra-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/2016\/02\/12\/super-homem-contra-o-mundo\/","title":{"rendered":"Super-Homem: Contra o Mundo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/supes.jpg\" rel=\"attachment wp-att-1703\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1703 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/supes-202x300.jpg\" alt=\"supes\" width=\"202\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/supes-202x300.jpg 202w, https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/supes.jpg 653w\" sizes=\"auto, (max-width: 202px) 100vw, 202px\" \/><\/a><strong>O (SUPER-)HOMEM e o MUNDO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cEst\u00e1 pronta a assinar a confiss\u00e3o? Ou quer que lhe d\u00ea uma amostra do que aquela arma sentiu quando apliquei press\u00e3o?\u201d<\/em><br \/>\n<em>\u201cVeja a facilidade com que tor\u00e7o esta barra de a\u00e7o nas minhas m\u00e3os &#8212; podia ser o seu pesco\u00e7o!\u201d<\/em><br \/>\n<em>\u201cAndor! E diga ao engenheiro de controlo que, se ele me tirar do ar, tor\u00e7o-lhe o pesco\u00e7o!\u201d<\/em><\/p>\n<p>Palavras fortes, agressivas e intimidadoras, sem d\u00favida. O tipo de amea\u00e7as que nos habitu\u00e1mos a ouvir da boca de vigilantes que tentam incutir o medo no cora\u00e7\u00e3o dos criminosos e que fazem da viol\u00eancia uma das suas principais ferramentas, mas nunca de her\u00f3is como o Super-Homem. No entanto, as supra-citadas frases vieram precisamente da boca do Homem de A\u00e7o, tal como escritas e traduzidas em arte pelas m\u00e3os dos seus criadores <strong>Jerry Siegel<\/strong> e <strong>Joe<\/strong> <strong>Shuster<\/strong> em <em>Action Comics<\/em> #1, #2 e #12 (EUA, 1938-1939), e soam sobremodo estranhas hoje. Afinal, a ideia do Super-Homem que actualmente se encontra cunhada na consci\u00eancia colectiva e na cultura <em>pop<\/em> \u00e9 a da figura de autoridade, a entidade paternal e bondosa que, enquanto protege o mundo de amea\u00e7as intergal\u00e1cticas, ciborgues movidos a min\u00e9rios alien\u00edgenas e afins, faz breves intervalos para pedir calmamente a jovens que diminuam o volume do r\u00e1dio para n\u00e3o incomodarem os seus vizinhos. Mas o Super-Homem que actualmente conhecemos foi fruto do seu tempo, tal como o foi o do final dos anos 30, a cria\u00e7\u00e3o original de dois filhos de emigrantes que viveram nos EUA da Grande Depress\u00e3o \u2014 um tempo f\u00e9rtil para o nascimento de um campe\u00e3o do povo espezinhado pelas elites pol\u00edticas, neste caso um alien\u00edgena superpoderoso criado por um humilde casal \u201csal da terra\u201d. Coincid\u00eancia ou n\u00e3o, a verdade \u00e9 que a crise econ\u00f3mica global que se vive actualmente \u00e9 tida por muitos como uma nova Grande Depress\u00e3o, e eis sen\u00e3o quando surge um \u201cnovo\u201d Super-Homem em 2011, com uma vis\u00e3o do mundo com demarcadas diferen\u00e7as daquela que o caracterizou nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Como \u00e9 evidente, poder-se-\u00e1 dizer que todas as \u00e9pocas clamaram pelo seu pr\u00f3prio campe\u00e3o dos oprimidos, por algu\u00e9m que lutasse por aqueles que se perdem nas entrelinhas da lei e que colocasse o bem do indiv\u00edduo acima da necessidade pragm\u00e1tica de quebrar ovos para fazer omeletes. E seria verdade. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 menos verdadeiro constatar que o final dos anos trinta e o caminho rumo \u00e0 segunda d\u00e9cada de 2000 deram origem a um Super-Homem muito, muito diferente daquele a que nos habitu\u00e1mos ao longo de todas as d\u00e9cadas desse intervalo. O Super-Homem que evoluiu para uma figura de autoridade durante a Segunda Guerra Mundial, que, de irm\u00e3o mais velho, forte e rebelde com o qual se pode contar para resolver os problemas do bairro \u00e0 for\u00e7a, se tornou num ser quase messi\u00e2nico, uma figura paterna conciliadora que acusava a responsabilidade acrescida do seu cada vez mais vasto poder. Um her\u00f3i que tinha freio nas suas habilidades quase divinas e que nunca colocava os seus sentimentos pessoais acima da lei, representando assim a ant\u00edtese da corrup\u00e7\u00e3o absoluta que o poder absoluto acarreta. Um problema que, como \u00e9 evidente, nunca se colocou ao Homem de A\u00e7o nos primeiros anos da sua carreira, pois, embora tremendamente poderoso \u00e0 sua maneira, n\u00e3o seria sequer capaz de despentear o famoso caracol em forma de &#8216;S&#8217; do Super-Homem das d\u00e9cadas seguintes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que nos traz aos dias de hoje, ao protagonista deste<em> Contra o Mundo,<\/em> em que <strong>Grant Morrison<\/strong> apresenta ao dito mundo um \u201cnovo\u201d Super-Homem, cuja personalidade \u00e9 um decalque intencional e modernizado da do dos anos 30, e assim levanta um dilema interessante. Isto porque, embora Morrison inicie a hist\u00f3ria com um Super-Homem ainda incapaz de voar, n\u00e3o t\u00e3o forte assim, consideravelmente menos r\u00e1pido e menos resistente por v\u00e1rias ordens de magnitude, o arco termina com o \u00daltimo Filho de Krypton a descobrir o seu legado e a ver o seu poder crescer. Ou seja, acabamos com um Super-Homem com todo o poder que se lhe conhece, mas sem uma s\u00e9rie dos tra\u00e7os de personalidade com que ele o temperara nas d\u00e9cadas anteriores. Este Homem de A\u00e7o, tal como o de Siegel e Shuster, est\u00e1 mais preocupado com a justi\u00e7a que com a letra da lei, n\u00e3o tem qualquer pejo em fazer frente \u00e0s for\u00e7as da autoridade e deix\u00e1-las com algumas n\u00f3doas negras se achar que est\u00e3o comprometidas ou que lhe desejam mal e, \u00e0 falta de termo melhor, tem ainda sangue na guelra. Em suma, um regresso ao irm\u00e3o mais velho que bate nos rufias e naqueles que depredam os mais fracos, uma for\u00e7a pelo bem desenfreada que, n\u00e3o sendo propriamente um fora-da-lei, d\u00e1 mais valor \u00e0 sua consci\u00eancia moldada pelos valores que os pais lhe incutiram do que \u00e0s leis e regras que lhe s\u00e3o ditadas. Um Super-Homem estouvado e sem papas na l\u00edngua para os conturbados tempos que o Ocidente vive, em que v\u00ea tremidas tantas das certezas que tinha por dados adquiridos.<\/p>\n<p>Felizmente que, para tal, pudemos contar com um autor do calibre de Grant Morrison, talvez dos escribas mais versados na hist\u00f3ria e na ess\u00eancia do Homem de A\u00e7o, e possivelmente o autor mais indicado para t\u00e3o ousado regresso \u00e0s ra\u00edzes de uma das mais ic\u00f3nicas personagens fict\u00edcias do mundo. Neste primeiro arco narrativo da epopeia de 18 n\u00fameros que concebeu para o Super-Homem dos Novos 52, o argumentista escoc\u00eas soube revestir esta sua complexa e abrangente hist\u00f3ria de um <em>corpus<\/em> vivo que engloba o passado do personagem, dando-lhe vida pr\u00f3pria e prestando homenagem ao seu legado, para que n\u00e3o nos esque\u00e7amos dele mesmo enquanto seguimos em frente. Dessa forma, o \u201cnovo\u201d Super-Homem \u00e9 como que legitimado pelos elementos do seu passado com que a epopeia de Morrison foi polvilhada: o sargento Casey, presen\u00e7a frequente nas p\u00e1ginas de<em> Action Comics<\/em> e <em>Superman<\/em> na Idade do Ouro, como representante da lei com que o Super-Homem por vezes se confrontava; George Taylor, editor do <em>Daily Star,<\/em> o primeiro jornal em que Clark Kent trabalhou; a alus\u00e3o aos tr\u00eas membros fundadores da Legi\u00e3o dos Super-Her\u00f3is que o visitavam no passado (os tais \u201cdois homens e uma mulher &#8212; loura\u201d); a refer\u00eancia ao <em>Smallville Sentinel,<\/em> um dos muitos nomes do jornal da terra-natal de Clark Kent na revista <em>Superboy;<\/em> o toque do telem\u00f3vel de Jimmy Olsen (\u201czee zee zee\u201d), que serve como homenagem ao som do rel\u00f3gio sinalizador que o jovem fot\u00f3grafo usava no passado quando precisava da ajuda do Super-Homem, etc.\u00a0 Mas tamb\u00e9m o uso de nomes que fazem parte do historial de inimigos, romances e aliados do Homem de A\u00e7o, como Nyxly, Lyla Lerrol e Yod-Colu, este \u00faltimo um verdadeiro \u201covo de P\u00e1scoa\u201d para f\u00e3s atentos, uma vez que aglutina os dois nomes pelos quais foi conhecido o planeta-natal de um dos maiores inimigos do Super-Homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ajudar a dar vida \u00e0 fervilhante imagina\u00e7\u00e3o de Morrisson, temos <strong>Rags Morales,<\/strong> com cuja arte caracter\u00edstica os leitores certamente j\u00e1 se ter\u00e3o familiarizado nas duas anteriores colec\u00e7\u00f5es da Levoir (nos volumes <em>Crise de Identidade<\/em> e <em>Aliados e Inimigos),<\/em> e que consegue desenhar um Clark Kent bem distinto do seu alter ego super-her\u00f3ico, mediando entre o caricato e o realista que \u00e9 o estado que melhor caracteriza a mais famosa dicotomia super-her\u00f3ica da fic\u00e7\u00e3o. Embora tamb\u00e9m este Clark Kent seja bem diferente daquele a que nos habitu\u00e1mos, insolente e atrevido e aqui representando o papel de um indiv\u00edduo impotente mas desbocado, ao contr\u00e1rio da <em>persona<\/em> inofensiva de cordeiro manso por que optara em eras anteriores.<\/p>\n<p>Em conclus\u00e3o, e tomando por base o argumento d&#8217;<em>O Cavaleiro das Trevas<\/em> e as palavras de <strong>David S. Goyer<\/strong> aquando da promo\u00e7\u00e3o do filme <em>Homem de A\u00e7o,<\/em> resta-nos esperar que o tempo nos ajude a perceber se este \u00e9 o Super-Homem de que o mundo precisa, ou apenas aquele que merece&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O (SUPER-)HOMEM e o MUNDO \u201cEst\u00e1 pronta a assinar a confiss\u00e3o? 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