{"id":2322,"date":"2019-06-27T11:20:01","date_gmt":"2019-06-27T10:20:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/?p=2322"},"modified":"2019-06-24T00:26:06","modified_gmt":"2019-06-23T23:26:06","slug":"da-cabeca-para-o-papel-pt-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/2019\/06\/27\/da-cabeca-para-o-papel-pt-iii\/","title":{"rendered":"Da Cabe\u00e7a Para o Papel &#8211; Pt. III"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/?p=2262\">Parte I<\/a> <a href=\"http:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/?p=2273\">Parte II<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez escrito o livro e enviado o manuscrito para a editora, segue-se a fase de aprecia\u00e7\u00e3o para apurar se \u00e9 ou n\u00e3o algo que valha a pena ser publicado. Como e \u00f3bvio, publicar livros \u00e9 uma lotaria, porque nunca se sabe qual poder\u00e1 vir a ser o pr\u00f3ximo grande sucesso, mas a verdade \u00e9 que a maior parte dos livros acaba por dar preju\u00edzo, por isso h\u00e1 um equil\u00edbrio delicado a gerir, e \u00e9 sempre bom o autor ansioso e expectante ter isso em conta. Se o livro for aprovado, \u00e9 ent\u00e3o paginado e entregue ao revisor, em documento electr\u00f3nico ou em provas de papel, consoante as prefer\u00eancias e proclividades tecnol\u00f3gicas da pessoa.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2323\" aria-describedby=\"caption-attachment-2323\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/revis\u00e3o.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2323 size-medium\" src=\"http:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/revis\u00e3o-300x169.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/revis\u00e3o-300x169.png 300w, https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/revis\u00e3o-768x432.png 768w, https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/revis\u00e3o-1024x576.png 1024w, https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/revis\u00e3o.png 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2323\" class=\"wp-caption-text\">O manuscrito revisto pelo revisor e por mim (meus reparos a azul).<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira \u00e9 um processo linear e descomplicado. O manuscrito revisto e com as altera\u00e7\u00f5es assinaladas \u00e9-me enviado por e-mail, eu re-revejo, aceitando ou rejeitando as correc\u00e7\u00f5es e sugest\u00f5es (que v\u00e3o para l\u00e1 do \u00e2mbito da gram\u00e1tica), e reenvio por e-mail para a editora. A segunda j\u00e1 exige outro tipo de log\u00edstica, que passa pelo envio por correio do manuscrito, em que as correc\u00e7\u00f5es est\u00e3o assinaladas a l\u00e1pis ou caneta, e que eu aprovo ou rejeito \u00e0 m\u00e3o e depois reenvio por correio. Ou ent\u00e3o, como os meus livros tendem a ser calhama\u00e7os enormes, que ainda por cima s\u00e3o impressos num s\u00f3 lado para as provas, normalmente dou s\u00f3 um salto \u00e0 editora, deixam-me numa sala privada com uma \u00e1gua, uma caneta e um telefone (\u00e0s vezes at\u00e9 um caf\u00e9, que eu sempre recuso mas que a simp\u00e1tica senhora faz quest\u00e3o de continuar a oferecer-me sempre que l\u00e1 vou), e fa\u00e7o l\u00e1 esse trabalho. Depois, h\u00e1 uma nova revis\u00e3o, o processo repete-se, e s\u00f3 ent\u00e3o com as provas finais prontas \u00e9 que o livro \u00e9 impresso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um trabalho um pouco ingrato para o revisor, porque, regra geral, a menos que se trate de um erro clamoroso, a \u00faltima palavra cabe sempre ao autor. Talvez por isso, por vezes v\u00eam ao de cima sentimentos que tornam o processo um pouco menos profissional e mais pessoal do que seria de esperar, tal como os seguintes reparos passivo-agressivos de uma das revis\u00f5es do <em>Obl\u00edvio<\/em>, aos quais respondi de forma n\u00e3o menos passivo-agressiva (em it\u00e1lico):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px; text-align: justify;\">62 \u2013 Entendo e aceito (\u00e9 esse o meu papel e dever) a constante busca de voc\u00e1bulos, com especial incid\u00eancia nos adjectivos, pouco ou nada habituais. Mas uma \u201crocha dissoluta\u201d parece-me realmente demasiado, por queda no absurdo, sen\u00e3o mesmo no ris\u00edvel, o que certamente n\u00e3o ser\u00e1 inten\u00e7\u00e3o do autor.<br \/>\n<em>Por absurdo que pare\u00e7a, \u00abdissoluto\u00bb significa tamb\u00e9m \u00abdissolvido, desfeito\u00bb.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">119 \u2013 N\u00e3o me parece que os p\u00e1ssaros apanhados em armadilha fiquem hirtos. Antes pelo contr\u00e1rio.<br \/>\n<em>Se for numa destas, ficam de certeza:<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/trap.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2325 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/trap-300x217.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"217\" srcset=\"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/trap-300x217.png 300w, https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/trap.png 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/em><br \/>\n130, 2 \u2013 N\u00e3o me parece muito prov\u00e1vel que se possa dar um golpe mortal a uma baleia com uma faca e na espinha dorsal.<br \/>\n<em>Mas \u00e9, visto que h\u00e1 baleias mais pequenas que a azul ou que cachalotes, como o revisor porventura estar\u00e1 a visionar. Trata-se de uma tradi\u00e7\u00e3o das Ilhas Faro\u00e9, inclusive, onde existe uma faca especialmente para o efeito: a <\/em>grindakn\u00edvur.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px; text-align: justify;\">283 \u2013 Como adjectivo, estatu\u00e1rio significa \u201crelativo \u00e0 arte de fazer est\u00e1tuas\u201d e n\u00e3o \u201csemelhante a uma est\u00e1tua\u201d.<br \/>\n<em>Na verdade, como adjectivo, \u00abestatu\u00e1rio\u00bb significa tamb\u00e9m \u00abque \u00e9 pr\u00f3prio de est\u00e1tua ou lembra uma est\u00e1tua\u00bb. Pelo menos segundo a Academia das Ci\u00eancias de Lisboa&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px; text-align: justify;\">285 \u2013 Cacha\u00e7o? Perdoe-se-me a brincadeira, mas ser\u00e1 que, ao referir o rosto da princesa, vir\u00e1 alguma vez a chamar-se-lhe trombas? Se ainda fosse Seltor a diz\u00ea-lo\u2026<br \/>\n<em>Brincadeira perdoada. Acontece que o cacha\u00e7o \u00e9 a \u00abparte posterior do pesco\u00e7o\u00bb, ao passo que \u00abnuca\u00bb, o termo mais pr\u00f3ximo, \u00e9 a \u00abparte superior e posterior do pesco\u00e7o\u00bb, e o meu rigor descritivo n\u00e3o me permitiu us\u00e1-lo. Al\u00e9m do mais, acho que o termo \u00abcacha\u00e7o\u00bb \u00e9 injustamente discriminado devido \u00e0 ind\u00fastria alimentar <\/em>[Nota: Em defesa do revisor, hoje provavelmente teria usado \u00abcerviz\u00bb.]<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px; text-align: justify;\">381, 1 \u2013 Mais uma vez, aconselho uma consulta ao dicion\u00e1rio, onde se verifica que muito dificilmente se pode esmagar algo mais duro que, sei l\u00e1, uma lesma com um p\u00e9 cal\u00e7ado de escarpim.<br \/>\n<em>Resta-me aconselhar uma consulta a um livro ou enciclop\u00e9dia de armas e armaduras medievais, onde verificar\u00e1 que \u00abescarpim\u00bb \u00e9 um termo t\u00e3o impressionante quanto \u00abbabeira\u00bb, mas que n\u00e3o obstante existe e \u00e9 correcto.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px; text-align: justify;\">458 \u2013 Como \u00e9 que se mordem os dentes?<br \/>\n<em>Da mesma maneira que se mata algu\u00e9m com o olhar, imagino.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como v\u00eaem, pode ser um processo divertido, apesar de moroso, com remoques \u00e0 mistura e muita consulta batalhadora de dicion\u00e1rios. O maior desafio \u00e9 mesmo o escritor abstrair-se do seu ego e ter a humildade de aceitar correc\u00e7\u00f5es (e, por vezes, melhorias) ao seu livro. Porque \u00e9 realmente \u00fatil ter-se a perspectiva de algu\u00e9m de &#8220;fora&#8221;, tendo em conta o qu\u00e3o solit\u00e1rio e egoc\u00eantrico pode ser o processo de escrita, raz\u00e3o pela qual muitos autores preferem que algu\u00e9m seu conhecido leia o manuscrito antes de o enviarem para a editora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E assim se passa um livro da cabe\u00e7a para o papel. Espero que tenha sido elucidativo, e pe\u00e7o-vos n\u00e3o hesitem em registar a vossa opini\u00e3o, porque gostava de saber se teriam interesse em mais entradas deste g\u00e9nero. Estou tamb\u00e9m aberto a sugest\u00f5es (obrigado a quem as enviou entretanto por e-mail; j\u00e1 me ajudaram a ter uma ideia dos temas a abordar no futuro).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parte I Parte II Uma vez escrito o livro e enviado o manuscrito para a editora, segue-se a fase de aprecia\u00e7\u00e3o para apurar se \u00e9 ou n\u00e3o algo que valha a pena ser publicado. 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