{"id":2342,"date":"2019-07-04T21:32:53","date_gmt":"2019-07-04T20:32:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/?p=2342"},"modified":"2019-07-04T21:32:53","modified_gmt":"2019-07-04T20:32:53","slug":"a-questao-do-ao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/2019\/07\/04\/a-questao-do-ao\/","title":{"rendered":"A quest\u00e3o do AO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Sempre me disseram que era perigoso tomar banho (praia, piscina ou duche) durante a digest\u00e3o, ao ponto de uma vez um colega meu ter tido um ataque de choro quando foi empurrado para a \u00e1gua por um amigo ap\u00f3s o almo\u00e7o. J\u00e1 adulto, percebi que isso era um mito. Tive uma inf\u00e2ncia inocente, em que acreditava no Ratinho dos Dentes, at\u00e9 ser gozado em plena turma ap\u00f3s contar o que me tinha acontecido nas f\u00e9rias, e um colega mais apiedado me explicar que eram os meus pais quem me deixava o dinheiro debaixo da almofada. E boa parte da minha vida achei que <em>tectos<\/em> eram superf\u00edcies que formam a parte superior das habita\u00e7\u00f5es, e que <em>tetos <\/em>eram a forma burgessa como nos refer\u00edamos aos seios das nossas colegas de escola. Cresci a usar ambos de forma bem distinta, at\u00e9 que, certo dia, j\u00e1 adulto, come\u00e7aram a soar as pontadas de uma contagem decrescente ap\u00f3s a qual <em>tetos<\/em> poderia ou n\u00e3o fazer-me passar por burgesso, e <em>tectos<\/em> me mereceria possivelmente a classifica\u00e7\u00e3o de retr\u00f3grado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma coisa estranha, este Acordo Ortogr\u00e1fico. 29 anos ap\u00f3s ter sido assinado, restam ainda dois pa\u00edses no mundo lus\u00f3fono que ainda n\u00e3o aderiram, e os restantes parecem n\u00e3o saber bem o que fazer com ele e qual o seu prop\u00f3sito. Eu pr\u00f3prio confesso que n\u00e3o acompanhei de perto o processo inicialmente e ainda hoje me questiono quanto ao porqu\u00ea. Foi o Minist\u00e9rio dos Neg\u00f3cios Estrangeiros que se sentiu atra\u00eddo pelos reais do mercado editorial brasileiro? O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura que achou que o haver <em>factos <\/em>e <em>fatos <\/em>era um impedimento \u00e0 aprendizagem do portugu\u00eas da parte de estrangeiros? A Academia das Ci\u00eancias de Lisboa que achou inaceit\u00e1vel o haver duas ortografias distintas para o portugu\u00eas, certamente assustada com os efeitos delet\u00e9rios que isso teve para a l\u00edngua mais falada do mundo, o ingl\u00eas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou certo de que tudo isto j\u00e1 foi amplamente discutido por quem de direito e ignorado por quem de torto, mas a s\u00e9rio que continuo sem perceber. O <em>Regras que ensinam a maneira de escrever a orthographia da l\u00edngua portuguesa<\/em>, de P\u00earo de Magalh\u00e3es G\u00e2ndavo, procurava aproximar mais o portugu\u00eas do latim, numa abordagem dita civilizadora e edificante das gentes. Em sentido inverso, as tentativas de reformas ortogr\u00e1ficas (que culminaram na de 1911) visavam afastar o portugu\u00eas dos \u00e9timos latinos e gregos, o que resultou em Portugal com uma ortografia reformada e o Brasil a manter a ortografia de base etimol\u00f3gica. Mais tarde, foram sendo promulgadas altera\u00e7\u00f5es em ambos os pa\u00edses, para reduzir as diverg\u00eancias ortogr\u00e1ficas entre os dois, o que veio a desaguar no Acordo Ortogr\u00e1fico como hoje o conhecemos, um tratado convencional que nos trouxe p\u00e9rolas como o caso da palavra <a href=\"https:\/\/portuguesaletra.com\/acordo-ortografico\/receptor-ou-recetor-ao\/\">receptor<\/a>, que mais parece um jogo das cadeiras ortogr\u00e1fico. Basicamente, como sempre o faz, o pensamento acad\u00e9mico p\u00f3s-modernista prop\u00f4s-se a resolver um problema que n\u00e3o existia, criou um que escusava de existir, e apenas existe porque se escusa a criar, limitando-se a distorcer (ou, v\u00e1, reinterpretar).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A n\u00edvel profissional, o Acordo n\u00e3o mudou a minha forma de escrever nem de traduzir. A Presen\u00e7a aderiu e, ap\u00f3s sucessivas opera\u00e7\u00f5es de charme, l\u00e1 me persuadiu a ter subsequentes edi\u00e7\u00f5es dos meus livros na nova grafia, porque Plano Nacional de Leitura e tal e coiso. No entanto, com os meus manuscritos, fui s\u00f3 mesquinho e decidi dar mais trabalho aos revisores, entregando livros escritos &#8220;como deve ser&#8221; e deixando para outros o trabalho de eliminar consoantes mudas ou andar \u00e0 ca\u00e7a de h\u00edfenes. Mesmo os meus correctores ortogr\u00e1ficos continuam a ser das variantes pr\u00e9-AO (desde j\u00e1, o meu obrigado aos <a href=\"https:\/\/natura.di.uminho.pt\/wiki\/doku.php?id=dicionarios:main\">benem\u00e9ritos<\/a> que os mant\u00e9m). J\u00e1 no caso da tradu\u00e7\u00e3o, tenho-me fiado na minha capacidade de reten\u00e7\u00e3o de voc\u00e1bulos para n\u00e3o me enganar com <em>apocal\u00edticos, heroicos <\/em>e com o imperativo do verbo <em>parar, <\/em>mas tamb\u00e9m tenho instalada uma <a href=\"https:\/\/languagetool.org\/\">extens\u00e3o<\/a> para me certificar de que segue tudo nos conformes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma, tal como na quest\u00e3o das redes sociais, trabalho com um <em>handicap <\/em>s\u00f3 porque me oponho a algo. Algo que tenho esperan\u00e7a que venha a deixar de existir. Pode parecer pedante, mas tem a vantagem de manter a minha grafia consistente, ao contr\u00e1rio de muitos que, tal como eu, cresceram a escrever de uma certa forma, mas, ao contr\u00e1rio de mim, procuraram adoptar a nova e acabaram por criar uma terceira, em que usam elementos de ambas em comunica\u00e7\u00f5es do dia-a-dia. Quem sabe, daqui a alguns anos, talvez venha a ser essa a forma org\u00e2nica como a grafia do portugu\u00eas acaba por evoluir &#8211; n\u00e3o por imposi\u00e7\u00e3o, mas pela natural adop\u00e7\u00e3o dos falantes e escreventes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre me disseram que era perigoso tomar banho (praia, piscina ou duche) durante a digest\u00e3o, ao ponto de uma vez um colega meu ter tido um ataque de choro quando foi empurrado para a \u00e1gua por um amigo ap\u00f3s o almo\u00e7o. J\u00e1 adulto, percebi que isso era um mito. 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