{"id":2996,"date":"2020-02-15T22:29:33","date_gmt":"2020-02-15T22:29:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/?p=2996"},"modified":"2020-02-15T22:29:35","modified_gmt":"2020-02-15T22:29:35","slug":"as-verdadeiras-cronicas-de-gelo-e-fogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/2020\/02\/15\/as-verdadeiras-cronicas-de-gelo-e-fogo\/","title":{"rendered":"As verdadeiras Cr\u00f3nicas de Gelo e Fogo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como leitores de longa data do blogue talvez se recordem, a Isl\u00e2ndia ocupa um lugar especial no meu cora\u00e7\u00e3o. Foi l\u00e1 que escrevi o <em>Vagas de Fogo <\/em>e onde fiz extensa e diligente pesquisa para <em>A Alvorada dos Deuses. <\/em>N\u00e3o s\u00f3 isso, \u00e9 l\u00e1 que tenho a minha segunda fam\u00edlia &#8211; os meus <em>vikings <\/em>&#8211; e considero o pa\u00eds a minha segunda e mais cara casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, em 2003, ano em que primeiro l\u00e1 fui, a Isl\u00e2ndia n\u00e3o passava de uma ilha est\u00e9ril povoada por esquim\u00f3s. Na minha cabe\u00e7a, pelo menos. Era s\u00f3 uma aventura, algo a que me convenci a fazer s\u00f3 para sair do marasmo da encruzilhada em que a minha vida ent\u00e3o se encontrava. Afinal, se um homem n\u00e3o consegue encontrar prop\u00f3sito sequer no fim do mundo, que esperan\u00e7a h\u00e1 para ele no mundo propriamente dito?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para contextualizar, quando falo em \u00abencruzilhada\u00bb, refiro-me \u00e0quela altura estranha da minha vida em que estava a escrever e ganhar bem com livros, a fazer a ocasional tradu\u00e7\u00e3o, e a estudar para &#8211; achava eu &#8211; poder vir a ser tradutor. Porque havia que ser respons\u00e1vel e ter um canudo e ter um trabalho a s\u00e9rio, porque&#8230; bem, porque era a coisa a fazer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, \u00e0 parte as amizades que fiz e que ainda hoje duram, a vida universit\u00e1ria &#8211; enquanto extens\u00e3o mais liberal do regime lectivo da escola &#8211; n\u00e3o se coadunava comigo. Como dizia a mim mesmo na altura, j\u00e1 n\u00e3o queria estudar, queria <em>aprender<\/em>. E, revelando-me sem pudor como o jovem privilegiado a queixar-se de barriga cheia que eu na altura era, a situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ava a causar-me uma certa medida de ang\u00fastia existencial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como tal, a completamente arbitr\u00e1ria decis\u00e3o de ir espairecer uns tempos na Isl\u00e2ndia n\u00e3o me pareceu t\u00e3o descabida assim. E escusado ser\u00e1 dizer que n\u00e3o, apesar de ser conhecida como a Terra do Gelo e do Fogo, n\u00e3o \u00e9 uma ilha est\u00e9ril (apesar de apenas 1.2% do seu solo ser ar\u00e1vel), e a sua popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o consiste de esquim\u00f3s (eu era jovem e ignorante e s\u00f3 conhecia a Bj\u00f6rk; n\u00e3o me julguem). Tal como o descrevi no di\u00e1rio em que registei a minha viagem:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>J\u00e1 da janela, enquanto o avi\u00e3o mergulhava no mar de densas nuvens, senti de imediato que entrava noutro mundo. Uma s\u00e9rie de ba\u00edas entrecortadas e escarpadas, planuras rochosas com primordiais tons de azul, verde e toda a mir\u00edade de cores pelo meio; esta \u00e9 uma terra jovem, ainda em processo de nascimento segundo os padr\u00f5es do nosso Velho Continente. A aus\u00eancia de \u00e1rvores salta de imediato \u00e0 vista, pois onde quer que se olhe s\u00f3 se v\u00ea uma extens\u00e3o de resistentes ervas boas para pouco mais al\u00e9m de pastar<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A minha estadia com aquela que mais tarde se veio a tornar na minha fam\u00edlia islandesa foi algo que excedeu as minhas expectativas. N\u00e3o s\u00f3 consta que me tornei mais soci\u00e1vel &#8211; for\u00e7ado que fui a expor-me, para n\u00e3o me tornar num eremita deprimido a viver numa cave alheia &#8211; como literal e figurativamente expandi os meus horizontes, ganhei mais inspira\u00e7\u00e3o em tr\u00eas meses do que em tr\u00eas anos inteiros, e, ap\u00f3s subsistir durante noventa dias exclusivamente atrav\u00e9s da escrita (antes da crise de 2008, a Isl\u00e2ndia era cara que do\u00eda), percebi o que queria fazer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ia arranjar forma de viver s\u00f3 dos livros. Ou, pelo menos, teria esse prop\u00f3sito a almejar. Um desiderato no qual me focar e que tanto mais evidente se tornou ap\u00f3s viver numa terra em que todos os artistas s\u00e3o pintores e carpinteiros, escritores e carteiros, ou escultores e canalizadores. E n\u00e3o se tratava de profissionais que por acaso escrevem; eram artistas que faziam pela vida, e faziam-no <em>como<\/em> modo de vida. Imagino que isto n\u00e3o seja \u00fanico \u00e0 Isl\u00e2ndia, mas, num pa\u00eds em que as listas telef\u00f3nicas parecem dicion\u00e1rios mitol\u00f3gicos e podemos travar amizade com um ex-sumo sacerdote pag\u00e3o no caf\u00e9 da biblioteca, tudo ganhou uma outra dimens\u00e3o que o tornou mais claro e evidente aos meus olhos. Citando-me novamente:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Findos estes tr\u00eas meses, sinto-me revigorado pelo ar puro e a \u00e1gua cristalina, temperado pelos \u00e1speros contrastes escandinavos, fortalecido pelo clima agreste e pelo leite coalhado e \u00f3leo de f\u00edgado de bacalhau, maravilhado com as paisagens castas, enriquecido pelo contacto \u00edntimo e pr\u00f3ximo com uma gente t\u00e3o \u00fanica e sob tantos aspectos barb\u00e1rica. Um dos lugares-comuns das desculpas para viagens \u00e9 o cl\u00e1ssico \u00abvou descobrir-me a mim mesmo\u00bb, que, embora seja foleiro ao extremo, fica sempre bem dizer antes de uma jornada. <\/p><p>Pois bem, a verdade \u00e9 que n\u00e3o o esperava, mas aconteceu: de certa forma, descobri-me a mim mesmo&#8230; ou, pelo menos, descobri certas coisas das quais n\u00e3o estava ciente e que requerer\u00e3o uma longa reflex\u00e3o posterior quando tudo tiver voltado ao normal.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como leitores de longa data do blogue talvez se recordem, a Isl\u00e2ndia ocupa um lugar especial no meu cora\u00e7\u00e3o. Foi l\u00e1 que escrevi o Vagas de Fogo e onde fiz extensa e diligente pesquisa para A Alvorada dos Deuses. 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