{"id":3546,"date":"2021-06-03T02:33:29","date_gmt":"2021-06-03T01:33:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/?p=3546"},"modified":"2021-06-03T02:33:31","modified_gmt":"2021-06-03T01:33:31","slug":"a-minha-maneira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/2021\/06\/03\/a-minha-maneira\/","title":{"rendered":"\u00c0 minha maneira"},"content":{"rendered":"\n<p>Hoje gastei boa parte do dia a configurar um programa de tradu\u00e7\u00e3o assistida por computador, porque tenho na calha umas oportunidades profissionais que assim o requerem. E tive de o configurar, porque uso Linux em vez de Windows. E porque gosto de ter o meu Linux \u00e0 minha maneira, em vez de aceitar as coisas como elas s\u00e3o e ter uma configura\u00e7\u00e3o simples que n\u00e3o entra conflito com novos programas que tente instalar e assegura que tenho todas as depend\u00eancias de que possa precisar para programas que n\u00e3o uso actualmente, mas que posso vir a utilizar, como \u00e9 o caso desta nova ferramenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Queiram desculpar este pre\u00e2mbulo a fazer-se de t\u00e9cnico sem verdadeiramente o ser, mas achei apenas que esta situa\u00e7\u00e3o ilustra na perfei\u00e7\u00e3o que realmente <em>gosto<\/em> de fazer as coisas \u00e0 minha maneira, muitas vezes em detrimento do meu tempo, conforto e conveni\u00eancia. Uns diriam \u00abmania que \u00e9 diferente\u00bb. \u00abArmar aos cucos\/c\u00e1gados\u00bb, dir\u00e3o outros, menos caridosos. \u00abDeixa-te disso\u00bb, expressar\u00e3o outros ainda, muitas vezes mais bem-intencionados, vendo o trabalho que me d\u00e1 e a inadapta\u00e7\u00e3o que muitas vezes acarreta. A maior parte fica-se por um simples \u00abmerdas \u00e0 Filipe\u00bb, do tipo que me fez ser jogador de Xbox num pa\u00eds de Playstation, f\u00e3 da DC num mundo Marvel, utilizador de Linux num universo de janelas e ma\u00e7\u00e3s, alienado das redes sociais num mundo cada vez mais ligado \u00e0 tomada, defensor do Telegram (que deviam instalar, a s\u00e9rio), navegador do Brave (idem) e f\u00e3 inveterado de um g\u00e9nero liter\u00e1rio que \u2014 embora e felizmente se tenha afirmado \u2014 continua a ser tido por muitos como algo menor.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 aqui, tudo bem. Todos conhecemos aquele amigo com gostos e h\u00e1bitos mais estranhos, certo? E eu realmente sempre senti uma inclina\u00e7\u00e3o instintiva para o que est\u00e1 \u00e0 margem, para o esdr\u00faxulo. Talvez por isso significar que havia menos pessoas com quem interagir, o que, para um jovem extremamente pouco soci\u00e1vel, tinha o seu atractivo. Mas nem todos conhecemos um amigo com gostos e h\u00e1bitos mais estranhos que permite que os ditos gostos e h\u00e1bitos interfiram com o seu trabalho e o seu lazer, pelo menos na medida em que o obrigam a gastar muitas vezes o seu tempo para os adaptar \u00e0s necessidades. Confesso que at\u00e9 me surpreende como \u00e9 que os meus clientes de tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o se fartaram de mim, visto que tenho sempre uma condicionante ou um ou dois passos extra a dar para conseguir enviar ficheiros, participar em videoconfer\u00eancias, converter documentos, e \u00e0s vezes at\u00e9 algo t\u00e3o simples como receber correio electr\u00f3nico, porque \u00e9 Outlook, ou porque tem de ser uma conta Google, ou porque tenho de instalar uma plataforma de gest\u00e3o baseada na nuvem para verifica\u00e7\u00e3o adicional, ou o raio que o parta.<\/p>\n\n\n\n<p>Porqu\u00ea, ent\u00e3o? J\u00e1 n\u00e3o sou um adolescente bicho-do-mato, e acho que at\u00e9 me tornei bastante soci\u00e1vel nos \u00faltimos vinte anos (n\u00e3o ser\u00e1 exagero dizer que as interac\u00e7\u00f5es convosco tiveram um papel importante nessa evolu\u00e7\u00e3o). Afinal, ser diferente s\u00f3 por diferente ser tamb\u00e9m n\u00e3o faz o meu estilo, e ainda que seja crist\u00e3o, n\u00e3o sou propriamente adepto de cil\u00edcios. E seria de esperar que um profissional de tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o criasse tantos entraves e empecilhos a si mesmo naquilo que faz&#8230; a menos que houvesse algo mais que estivesse a extrair dessa dificuldade acrescida.<\/p>\n\n\n\n<p>A verdade \u00e9 que sou um privilegiado. Os meus pais deram-me uma boa vida, nunca me faltou nada (al\u00e9m do <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/3.bp.blogspot.com\/-V1lX2NK-Huw\/TrNR8i7tbZI\/AAAAAAAALYU\/5Z1F6NYD1NM\/s1600\/lphm_18.jpg\" target=\"_blank\">He-Man com espada que luzia<\/a>), e at\u00e9 mesmo a minha entrada no mundo liter\u00e1rio foi em grande, com a aut\u00eantica passadeira vermelha do Pr\u00e9mio Branquinho da Fonseca a praticamente garantir uma estreia de sucesso. Mas n\u00e3o me sinto culpado por isso, nem se trata de repor o equil\u00edbrio c\u00f3smico, complicando intencionalmente a minha vida s\u00f3 porque ela at\u00e9 aqui n\u00e3o foi m\u00e1 de todo. Antes pelo contr\u00e1rio, \u00e9 apenas uma forma de dar seguimento \u00e0quilo que a este ponto me trouxe: um rapaz imberbe que escreveu o que lhe deu na real gana, que levou o seu tempo para o fazer \u00e0 sua maneira quando ainda nem sabia bem o que ela era, que quis por for\u00e7a que as capas fossem de uma certa e determinada forma, e que foi evoluindo por acre\u00e7\u00e3o de erros que teriam sido evit\u00e1veis, se tivesse feito as coisas de outra maneira que n\u00e3o a sua (como por exemplo cultivar a sua comunidade de leitores).<\/p>\n\n\n\n<p>Aquilo que conclu\u00ed \u00e9 que gosto simplesmente do que requer trabalho extra. Do imperfeito truncado e inacabado que, com um toque pessoal, se torna verdadeiramente (ou mais ainda) nosso ou nos faz sentir que de alguma forma fazemos parte dele, em vez de sermos apenas mais um que o utiliza. \u00c9 poss\u00edvel que tenha jogado mais Xbox do que Playstation s\u00f3 porque n\u00e3o tinha interesse em jogar com outros, a minha inimizade para com as redes sociais vem de <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/2019\/06\/29\/o-porque-de-ser-avesso-as-redes-sociais\/\" target=\"_blank\">outras lides<\/a>, e calhou gostar mais dos personagens da DC do que dos da Marvel. Mas as restantes ditas \u00abmerdas \u00e0 Filipe\u00bb devem-se mesmo ao facto de que fazer as coisas \u00e0 minha maneira me estimula e me d\u00e1 todo um outro sentimento de perten\u00e7a sobre elas. Bem como uma sensa\u00e7\u00e3o de dever cumprido que se torna mais saborosa ainda pelo facto de n\u00e3o ter sido f\u00e1cil, quando podia perfeitamente t\u00ea-lo sido.<\/p>\n\n\n\n<p>Parafraseando e fundindo Theodore Roosevelt e Frank Lobdell, <em>n\u00e3o h\u00e1 coisa f\u00e1cil que valha a pena fazer.<\/em> Tamb\u00e9m n\u00e3o sei se iria t\u00e3o longe assim, mas talvez ousasse desvirtuar as palavras destes dois senhores e dizer que n\u00e3o vale realmente a pena fazer algo, a menos que seja \u00e0 nossa maneira. Porque isso nos obriga a sermos brutalmente honestos connosco mesmos, nos priva de desculpas para justificarmos quaisquer erros que possamos cometer e nos obriga a fazer uso de todas as nossas faculdades e talentos&#8230; ou a descobrir quais eles s\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje gastei boa parte do dia a configurar um programa de tradu\u00e7\u00e3o assistida por computador, porque tenho na calha umas oportunidades profissionais que assim o requerem. E tive de o configurar, porque uso Linux em vez de Windows. 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