{"id":4168,"date":"2023-11-09T20:30:59","date_gmt":"2023-11-09T20:30:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/?p=4168"},"modified":"2023-11-09T20:31:15","modified_gmt":"2023-11-09T20:31:15","slug":"o-bom-o-belo-e-o-verdadeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/2023\/11\/09\/o-bom-o-belo-e-o-verdadeiro\/","title":{"rendered":"O Bom, o Belo e o Verdadeiro"},"content":{"rendered":"\n<p>Em Abril passado, participei no Festival Contacto no painel O Bom, o Belo e o Verdadeiro, em que eu e a Madalena Santos discutimos esse conceito (doravante designado por BBV) nos seguintes tr\u00e2mites: <em>s\u00e3o estes os valores que fazem da boa literatura de fantasia obras intemporais? Ou ser\u00e3o estes adjectivos interpret\u00e1veis \u00e0 luz do movimento cultural dominante de cada era?<\/em> Numa altura em que me aproximo a passos largos do momento de decidir a que me vou dedicar quando concluir as Cr\u00f3nicas, achei apropriado partilhar o meu discurso de abertura no painel; n\u00e3o porque ele contenha necessariamente pistas acerca do rumo que vou seguir, mas porque \u00e9 algo em que, com a idade, cada vez penso mais.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 o BBV? Falamos de algo que, ao falar dele, tornamos ao mundo do abstracto. Somente quando lemos e experienciamos uma hist\u00f3ria que se paute pelo BBV \u00e9 que a apreendemos de forma concreta. Ou seja, n\u00e3o vale muito a pena compreender ou desconstruir uma hist\u00f3ria para descobrirmos \u00abo que significa\u00bb. Os princ\u00edpios que pudermos extrair s\u00e3o menos bons, belos e verdadeiros, porque os traduzimos atrav\u00e9s dos nossos conceitos e ideias limitados. \u00c9 o chamado \u00abtinhas de ter estado l\u00e1\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Antiguidade, as virtudes universais foram identificadas, mas foram-no num contexto polite\u00edsta, de deuses que representavam virtudes separadas, n\u00e3o unificadas. N\u00e3o foi sen\u00e3o com a vinda do cristianismo, que trouxe virtudes unificadas na forma de Cristo, que estas se tornaram indivis\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Dito isto,  os grandes fil\u00f3sofos gregos, de certa forma, prepararam-nos para essa chegada. Chamaram a aten\u00e7\u00e3o para uma realidade que transcende o mundo em que vivemos (a alegoria da caverna), em que o mundo dos sentidos n\u00e3o passava de uma sombra de um mundo real onde residiam os mais elevados ideais. A realidade n\u00e3o era temporal e material, mas espiritual e eterna.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o lograram o Bom, o Belo e o Verdadeiro, mas chegaram o mais longe poss\u00edvel atrav\u00e9s do intelecto e da raz\u00e3o. E o cristianismo trouxe a quem aceitava essa filosofia a revela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do BBV e a s\u00edntese destes na forma de Cristo, que encarnou o BBV e f\u00ea-lo enquanto caminhava por entre a esqualidez de um mundo imperfeito e era sujeito ao pior que ele tem para oferecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resposta a estas alus\u00f5es ao Cristianismo, muitos dir-me-\u00e3o com raz\u00e3o que n\u00e3o h\u00e1 nada de inerentemente sagrado na literatura. Que esta frequentemente retrata o mau, o feio e o falso. E muito bem o dizem. Mas, ainda que nem toda a literatura se paute ou se consiga pautar pelo BBV, a origem da maior parte das artes <em>\u00e9 <\/em>em servi\u00e7o ao sagrado, por isso n\u00e3o h\u00e1 bem como o contornar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficando-me pela abstrac\u00e7\u00e3o, como referi, o que \u00e9 o BBV, ent\u00e3o? \u00c9 o derradeiro fito do Homem, aquilo que ele almeja e deseja: a perfei\u00e7\u00e3o. O BBV transcende o tempo, o espa\u00e7o, a cultura, a doutrina e a ideologia. \u00c9 uma propriedade objectiva. Ao isolarmos e separarmos o Bom do Belo e do Verdadeiro, a imagem que temos do mundo torna-se fracturada e desorientada. Uma confus\u00e3o que nos pode levar a tomar o falso por belo, o feio por verdadeiro e o mau pelo bom. Que \u00e9 precisamente o que a doutrina do pecado prev\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Dito isto, e cingindo-me ao t\u00f3pico, um romance de fantasia que em vez de entreter tenha a pretens\u00e3o de edificar ou educar, acaba por n\u00e3o fazer nem uma coisa, nem outra. Um grande romance de fantasia n\u00e3o se limita a entreter, claro: faz-nos crescer. S\u00f3 que a sua finalidade n\u00e3o \u00e9 essa, mas sim contar uma hist\u00f3ria que interesse ao leitor. E isso, naturalmente, entret\u00e9m. Como tal, se \u00e9 verdade que o que se procura num romance de fantasia \u00e9 entretenimento, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que o que torna um livro realmente interessante \u00e9 o que nele se encontra <em>para l\u00e1<\/em> do entretenimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 se existe ou n\u00e3o o BBV na realidade. A realidade pode ser dura e negra, mas o grande romance de fantasia que a retrata com arabescos e atavios imagin\u00e1rios desafia-nos constantemente a desejar mais do que ela. E isso \u00e9 o que em \u00faltima inst\u00e2ncia um romance intemporal de fantasia faz: desperta em n\u00f3s o desejo do BBV, o anseio pela perfei\u00e7\u00e3o, o grito pela eternidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que n\u00e3o concordemos com o BBV, ou que n\u00e3o consigamos aqui chegar a um consenso acerca do que o define, julgo que o amor pela literatura e pelo prazer que ela nos d\u00e1 une a maior parte de n\u00f3s. Por isso, deixo-vos as seguintes palavras de uma certa trilogia que n\u00f3s c\u00e1 conhecemos:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;\u00c9 melhor amar primeiro aquilo que fomos destinados a amar: precisamos de come\u00e7ar por algum lado e ter algumas ra\u00edzes [&#8230;] No entanto, h\u00e1 coisas mais fundas e mais altas, e nenhum jardineiro podia cuidar o seu jardim em paz [&#8230;] se n\u00e3o fosse por elas, quer saiba da sua exist\u00eancia ou n\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<cite>Merry Brandybuck, O Senhor dos An\u00e9is: O Regresso do Rei<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel olhar para as coisas grandes se come\u00e7armos por amar as coisas pequenas que est\u00e3o diante de n\u00f3s. Porque \u00e9 o amor pelas coisas pequenas que nos leva ao desejo das coisas grandes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Abril passado, participei no Festival Contacto no painel O Bom, o Belo e o Verdadeiro, em que eu e a Madalena Santos discutimos esse conceito (doravante designado por BBV) nos seguintes tr\u00e2mites: s\u00e3o estes os valores que fazem da boa literatura de fantasia obras intemporais? 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