{"id":4331,"date":"2024-04-26T13:40:24","date_gmt":"2024-04-26T12:40:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/?p=4331"},"modified":"2024-04-26T13:40:27","modified_gmt":"2024-04-26T12:40:27","slug":"praticas-de-escrita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/2024\/04\/26\/praticas-de-escrita\/","title":{"rendered":"Pr\u00e1ticas de Escrita"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 quase dois anos, fui convidado para orientar o curso <a href=\"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/2022\/07\/10\/praticas-de-escrita-iii\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Pr\u00e1ticas de Escrita III<\/a>, na FLUL. Foi um desafio muito interessante, que at\u00e9 correu bastante bem, e, embora tenha perfeita no\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o reinventei a roda, julgo que alguns dos conte\u00fados poder\u00e3o ser \u00fateis ou do interesse de quem o tem por escrita de aventura.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o seria correcto da minha parte publicar aqui o diapositivo que fiz para as sess\u00f5es, mas julgo que n\u00e3o h\u00e1 qualquer mal em divulgar os apontamentos soltos que tirei para a cria\u00e7\u00e3o dos mesmos. Fica a faltar o \u00abrecheio\u00bb, mas acho que as notas abaixo ilustram bem o meu m\u00e9todo e a forma como encaro a escrita.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sess\u00e3o I<\/strong><\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-code\"><code>\u2022 Tudo o que vou dizer pode ser contradito com exemplos de outros autores de sucesso. Mas isso \u00e9 l\u00e1 com eles. O que vos vou trazer hoje \u00e9 a minha perspectiva, que n\u00e3o \u00e9 perfeita, mas tem funcionado bem para mim ao longo de vinte anos de carreira e 14 livros escritos.\n\n\u2022 Querem escrever porque gostam de escrever, ou porque gostam da ideia de terem escrito? Importante, se realmente tencionam concluir aquilo que come\u00e7aram.\n\n\u2022 Escrever o tipo de hist\u00f3rias que se gostaria de ler. Risco de ser demasiado \u00e0 volta do nosso umbigo, mas ao menos elimina a quest\u00e3o \u00abcomo surgem as ideias\u00bb.\n\n\u2022 A vida da maior parte de n\u00f3s pode n\u00e3o ser muito aventureira, mas a inspira\u00e7\u00e3o continua a ser tudo o que nos rodeia. Detalhes do dia-a-dia. Complementa-se com pesquisa.\n\n\u2022 A escrita requer disciplina, e cada um tem de encontrar a sua pr\u00f3pria \u00abzona\u00bb.\n\n\u2022 Se calhar j\u00e1 a descobriram. Se ainda n\u00e3o sabem qual \u00e9, nada como experimentar. Eu achava que tinha uma s\u00f3, mas um bloqueio criativo levou-me a descobrir outra.\n\n\u2022 Inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 muito bonito, mas \u00e9 apenas a fa\u00edsca. O mais importante para concluir o que se come\u00e7a com a inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 a consist\u00eancia. X p\u00e1ginas\/palavras por dia, mas sempre algo.\n\n\u2022 Falando em fa\u00edscas, pode ser qualquer coisa. Vamos experimentar algo de espec\u00edfico hoje.\n\n\u2022 Embora seja possessivo com o que crio, sempre me senti estimulado em projectos em que era para brincar no \u00abparque infantil\u00bb de outros (Leopoldina, Super-Homem).\n\n\u2022 Imagino que muitos de voc\u00eas ter\u00e3o ideias, mas vamos fazer de conta que n\u00e3o e, com uma experi\u00eancia, fazer engenharia reversa para chegarmos \u00e0 parte por que se deve come\u00e7ar: o g\u00e9rmen da hist\u00f3ria. O conceito b\u00e1sico.\n\n    \u25e6 A cena come\u00e7a de\u2026\n    \u25e6 O local \u00e9...\n    \u25e6 Sente-se uma atmosfera\u2026\n    \u25e6 A primeira coisa que o leitor v\u00ea \u00e9\u2026\n    \u25e6 O protagonista est\u00e1\u2026\n    \u25e6 O protagonista quer\u2026\n    \u25e6 O protagonista n\u00e3o tem o que quer porque\u2026\n    \u25e6 Para o conseguir, est\u00e1 disposto a\u2026\n    \u25e6 De repente, aparece...\n\n\u2022 A mim, ajuda-me pensar que isto \u00e9 um <em>puzzle<\/em>. Algo que consigo mapear. Um conjunto de pe\u00e7as que comp\u00f5em algo e a cujo todo tenho de dar sentido. Vamos fazer isso com base neste resultado.\n\n\u2022 Um livro com um mundo fascinante e personagens banais dificilmente cativa; mas o oposto nunca falha. Invistam nas personagens e n\u00e3o fa\u00e7am delas meros porta-vozes do enredo. Mas\u2026\n\n\u2022 A ess\u00eancia de qualquer hist\u00f3ria \u00e9 o conflito. E \u00e9 precisamente o conflito das personagens com o mundo o que faz a hist\u00f3ria. Lembrem-se dessa oposi\u00e7\u00e3o quando escrevem aventuras.\n\n\u2022 Dica para vos ajudar a construir o mundo \u00e0 volta do g\u00e9rmen da vossa ideia: porqu\u00ea e como \u00e9 que isso afecta o mundo. Senhor \u00e9 dos An\u00e9is. Porqu\u00ea um anel? Para que possa trocar facilmente de m\u00e3os e para o momento clim\u00e1tico no final. E cria os Espectros do Anel, os advers\u00e1rios mais memor\u00e1veis da trilogia.<\/code><\/pre>\n\n\n\n<p><strong>Sess\u00e3o II<\/strong><\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-code\"><code>\u2022 Na sess\u00e3o anterior, pus-vos um par de b\u00f3ias e atirei-vos para a \u00e1gua. Agora, entremos nos detalhes.\n\n\u2022 Descri\u00e7\u00f5es. Quest\u00e3o de prefer\u00eancia. Sou muito detalhado, porque sou cioso da minha cria\u00e7\u00e3o e quero que os leitores vejam o que vejo. Mas nem toda a gente gosta disso.\n\n\u2022 Ler faz o c\u00e9rebro trabalhar, e os leitores preenchem facilmente as lacunas da vossa descri\u00e7\u00e3o, por isso s\u00f3 precisam de dar algo a que se possa agarrar, que o leitor trata do resto.\n\n\u2022 Idealmente, devem \u00abtocar\u00bb cada um dos cinco sentidos. N\u00e3o t\u00eam de o fazer, mas n\u00e3o h\u00e1 sentidos irrelevantes. Qualquer um deles pode revelar algo mais acerca da pessoa ou objecto que se descreve, e torna mais rico.\n         \n\u2022 N\u00e3o negligenciem os nomes, que eles podem descaracterizar o mundo que criarem. Exerc\u00edcio de adjectivo, anagrama, etc. Drahregs.\n        \u25e6 Mudem o vosso nome. Usem-no como base, fa\u00e7am um anagrama com ele, pensem em adjectivos que vos caracterizem em portugu\u00eas ou outro idioma, misturem-nos, usem-nos como prefixo ou sufixo, combinem-no com outro nome de que gostem.\n      \n\u2022 Personagens devem falar umas com as outras, n\u00e3o para o leitor. Nunca se esque\u00e7am.\n      \n\u2022 Diferenciem. N\u00e3o ponham toda a gente a falar com a mesma \u00abvoz\u00bb. E, a menos que a hist\u00f3ria o exija, n\u00e3o ponham um fazendeiro a falar como o E\u00e7a de Queiroz.\n      \n\u2022 A forma como escrevem o di\u00e1logo serve por si s\u00f3 para dar \u00abcor\u00bb \u00e0s personagens. N\u00e3o t\u00eam de o fazer com todas, mas a maior parte de n\u00f3s tem tiques, cad\u00eancias e modos de fala, e isso assinala quem est\u00e1 a falar.\n      \n\u2022 O conceito da unidade de efeito \u2014 o de que cada elemento deve ajudar a criar um determinado impacto emocional \u2014 \u00e9 giro e funciona. Ajuda-vos a ter um conceito em torno do qual caracterizar. Mas n\u00e3o exagerem.\n        \u25e6 L\u00e1 porque um feiticeiro se especializa em fogo, n\u00e3o quer dizer que tenha de ser ruivo, ter um temperamento fogoso e chamar-se Ign\u00e1cio. Pessoas tendem a ser mais complexas do que isso.\n      \n\u2022 Religi\u00e3o. Independentemente das vossas cren\u00e7as (ou falta delas), n\u00e3o a negligenciem. \u00c9 um componente importante da condi\u00e7\u00e3o humana e influencia profundamente o mundo que criarem e como as personagens interagem com ele.\n      \n\u2022 Uma aventura n\u00e3o precisa de ter ac\u00e7\u00e3o. Mas, se n\u00e3o gostam de escrever cenas de ac\u00e7\u00e3o, pelo amor de Deus, n\u00e3o montem uma narrativa que leva a uma resolu\u00e7\u00e3o de combate. Vai ser s\u00f3 anticlim\u00e1tico.\n      \n\u2022 Se n\u00e3o gostam de combates, fiquem-se por personagens que resolvem problemas atrav\u00e9s da ast\u00facia, por exemplo.\n      \n\u2022 Repetindo: uma aventura pode ser uma rapariga a declarar-se \u00e0 sua paix\u00e3o de liceu, um obst\u00e1culo a ultrapassar, uma idosa a atravessar a estrada.\n      \n\u2022 Quando est\u00e3o a estruturar o tal mapa ou \u00abesqueleto\u00bb da hist\u00f3ria, fa\u00e7am de conta que s\u00e3o um DJ numa festa. T\u00eam de equilibrar o ritmo e a intensidade. N\u00e3o escrevam um combate de 16 p\u00e1ginas (como eu fiz) e apimentem a coisa.\n      \n\u2022 Os quatro \u00ab\u00e3os\u00bb: interac\u00e7\u00e3o (personagens), introspec\u00e7\u00e3o (protagonista), explora\u00e7\u00e3o (mundo), confus\u00e3o (conflito do protagonista com as personagens, o mundo e consigo mesmo).\n      \n\u2022 Consoante o g\u00e9nero liter\u00e1rio que escreverem, v\u00e3o ter mais ou menos de cada um destes elementos. Mas, a menos que seja uma obra muito espec\u00edfica, n\u00e3o conv\u00e9m que nenhum deles falte.<\/code><\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 quase dois anos, fui convidado para orientar o curso Pr\u00e1ticas de Escrita III, na FLUL. Foi um desafio muito interessante, que at\u00e9 correu bastante bem, e, embora tenha perfeita no\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o reinventei a roda, julgo que alguns dos conte\u00fados poder\u00e3o ser \u00fateis ou do interesse de quem o tem por escrita de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3307,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[31],"tags":[],"class_list":["post-4331","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-anamnese"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4331","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4331"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4331\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4332,"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4331\/revisions\/4332"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3307"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4331"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4331"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4331"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}