{"id":4549,"date":"2024-11-11T13:09:01","date_gmt":"2024-11-11T13:09:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/?p=4549"},"modified":"2025-06-30T22:35:09","modified_gmt":"2025-06-30T21:35:09","slug":"o-padrinho-croata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/2024\/11\/11\/o-padrinho-croata\/","title":{"rendered":"O padrinho croata"},"content":{"rendered":"\n<p> H\u00e1 alguns tempos, quando fazia no Telegram os relatos da saga que foi conhecer, visitar, casar e tratar da burocracia interfronteiri\u00e7a do casamento com a minha agora esposa, cheguei a fantasiar escrever um livro com base nessas aventuras. Isso dificilmente se tornar\u00e1 uma realidade, visto que uma das duas partes que seriam necess\u00e1rias para o fazer n\u00e3o aprova a ideia, mas as mem\u00f3rias est\u00e3o l\u00e1 e acabam por vir \u00e0 tona quando menos as espero.<\/p>\n\n\n\n<p>A mais recente foi desencadeada pelo convite para o vindouro casamento daquele que foi padrinho do meu, um senhor ao qual chamaremos Damir \u2013 at\u00e9 porque \u00e9 esse o nome dele \u2013 e que teve um papel fundamental na liga\u00e7\u00e3o Lisboa-Mostar, com pandemias e toda a sorte de dificuldades e contratempos pelo meio. Esta \u00e9 a nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1vamos no Outono de 2018. Eu e a minha esposa (doravante referida como Minha Futura Esposa, ou MFE) t\u00ednhamo-nos conhecido virtualmente em Junho desse ano e decidido encontrar-nos em Outubro num territ\u00f3rio neutro, em It\u00e1lia. Esse plano quase saiu gorado, porque parti o tornozelo duas semanas antes da data do voo. Foi um acidente est\u00fapido, em que andava de bicicleta e n\u00e3o parei a tempo de evitar que um carro que estava a andar <em>bastante<\/em> devagar me desse um toque com o p\u00e1ra-choques. Foi quanto bastou para me fracturar o tornozelo e, a duas semanas da viagem, tive de agendar uma cirurgia r\u00e1pida e arranjar uma alternativa c\u00e9lere a muletas, pois n\u00e3o desejava passear por It\u00e1lia com a MFE nessas condi\u00e7\u00f5es. E o que eu encontrei mereceu-me a alcunha de \u00abRobocop\u00bb durante uns meses.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/robocop.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"960\" src=\"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/robocop.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4552\" srcset=\"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/robocop.png 960w, https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/robocop-300x300.png 300w, https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/robocop-150x150.png 150w, https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/robocop-768x768.png 768w, https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/robocop-200x200.png 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">N\u00e3o \u00e9 para fazer publicidade, mas sem d\u00favida que tem o meu aval. E na altura ainda era o 2.0!<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Fora de brincadeiras, esta geringon\u00e7a \u00e9 fant\u00e1stica. S\u00f3 pelo facto de permitir usar as duas m\u00e3os enquanto nos d\u00e1 um ar de amputado quando nos v\u00eaem de frente, j\u00e1 vale o pre\u00e7o. Deu-me a confian\u00e7a de que o meu tornozelo rachado n\u00e3o iria ser um problema, e aguardei ansiosamente o dia do voo a partir de ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o nosso plano acabou por sair gorado por um problema de sa\u00fade s\u00e9rio da MFE na v\u00e9spera, e tive de cancelar a viagem porque ela pura e simplesmente n\u00e3o estava em condi\u00e7\u00f5es de viajar. Fic\u00e1mos os dois extremamente frustrados, como \u00e9 \u00f3bvio, mas n\u00e3o me deixei desmotivar e comprei bilhetes para ir eu visit\u00e1-la a Mostar no in\u00edcio de Novembro. A viagem a It\u00e1lia ficaria para outra altura, e come\u00e7\u00e1mos ent\u00e3o a planear o que ir\u00edamos fazer na Herzegovina, acerca da qual ainda sabia muito pouco na altura.<\/p>\n\n\n\n<p>A viagem em si foi algo complexa do ponto de vista log\u00edstico, at\u00e9 porque levava bagagem de por\u00e3o e umas muletas de precau\u00e7\u00e3o (al\u00e9m de que a geringon\u00e7a cansa um bocado a perna ap\u00f3s uso prolongado, sobretudo para quem ainda se est\u00e1 a habituar a ela), mas fui muito bem tratado nos tr\u00eas aeroportos da viagem Lisboa-Frankfurt-Zagrebe (em Frankfurt chamaram-me \u00abLong John Silver\u00bb, e em Zagrebe houve at\u00e9 malta dos servi\u00e7os de suporte em solo a tirar <em>selfies <\/em>incr\u00e9dulas comigo). S\u00f3 n\u00e3o fui bem tratado no aeroporto de Mostar, porque nem cheguei a aterrar l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade. Ao fim de um <em>longo<\/em> dia de viagem, e j\u00e1 perto das 22h00 locais, as condi\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas no aeroporto de Mostar foram consideradas impr\u00f3prias para aterrar (nevoeiro), e o avi\u00e3o teve de fazer um desvio para Dubrovnik, na Cro\u00e1cia, que fica a umas boas 2h30 de carro e bem mais de camioneta, que foi o transporte que a companhia a\u00e9rea nos arranjou para nos levar ao destino ainda nessa noite. E foi a\u00ed, no aeroporto de Dubrovnik, que conheci o Damir, o meu futuro melhor amigo croata e padrinho de casamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo come\u00e7ou quando ele se ofereceu para me ajudar com as malas e as muletas, ao ver-me atrapalhado quando enquanto dezenas de passageiros a bufar de irrita\u00e7\u00e3o com o atraso se apressavam a colocar a sua bagagem na camioneta. Agradeci a ajuda, embora, desconfiado ao ver-me abordado por um calmeir\u00e3o balc\u00e2nico de casaco de cabedal com pinta de taxista \u2013 daqueles que cobram \u00e0 m\u00e1-fila o equivalente a meio m\u00eas de sal\u00e1rio por um trajecto aeroporto-centro \u2013 fui discretamente a coxear atr\u00e1s dele quando ele contornou a camioneta para ir p\u00f4r as malas no lado menos concorrido, s\u00f3 para me certificar de que ele n\u00e3o mas surripiava. Quando as vi em seguran\u00e7a, fui mais descansado para o meu lugar privilegiado na dianteira da camioneta, onde pude estender a perna \u00e0 vontade e onde me preparei para uma viagem longa e secante.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi tudo menos isso, contudo. Percorremos um curto trajecto antes da primeira paragem, ainda na Cro\u00e1cia, onde toda a gente p\u00f4de ir fazer o seu xixizinho e comprar uns petiscos e bebidas, porque j\u00e1 passava das 23h e havia muita gente com fome. Devido aos nervos e ao stresse, n\u00e3o estava com grande apetite, pelo que sa\u00ed apenas para esticar a(s) perna(s). Quando chega a altura de regressar \u00e0 camioneta, eis sen\u00e3o quando me cruzo novamente com o Damir, que troca dois dedos de conversa comigo e, depois de eu lhe agradecer pela ajuda com as malas, olha para mim, olha para o saco de pl\u00e1stico que trouxe da bomba e faz-me uma proposta: e se eu o deixasse sentar-se comigo nos lugares mais privilegiados da camioneta, a troco de cerveja?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o havia como recusar semelhante oferta, e assim fiquei com companhia para o resto da viagem. Confessei ao Damir que o tinha tomado por um taxista manhoso \u00e0 coca de bagagens de estrangeiros incautos, e este disse-me que me tinha tomado por terrorista quando primeiro me vira, e que achara que a geringon\u00e7a da minha perna era um qualquer apetrecho para esconder uma bomba. Fomos regando a conversa com cerveja ao longo da viagem, na qual for\u00e7\u00e1mos o condutor a mais paragens que o necess\u00e1rio, uma das quais para urinarmos lado a lado, \u00e0 chuva, comigo apoiado no ombro do Damir, num posto de gasolina abandonado na fronteira com a B\u00f3snia. Merecemos inclusive o \u00f3dio e despeito de uma senhora, cujo pedido para parar fora recusado, e que ter\u00e1 dito algo como: <em>\u00abah, <\/em>pois, para mim n\u00e3o d\u00e1, mas para aqueles dois b\u00eabedos j\u00e1 p\u00e1ra\u00bb. Ningu\u00e9m quer ser aquela pessoa que se recusa a parar para um aleijadinho ir fazer o seu xixi, afinal de contas.<\/p>\n\n\n\n<p>Fal\u00e1mos de tudo um pouco ao longo da viagem, e fiquei a saber que o Damir ia visitar a namorada, que estava a estudar em Mostar na altura. Quando soube da minha hist\u00f3ria, ficou a olhar para mim em sil\u00eancio por uns momentos, olhou de seguida para cima como quem processava a informa\u00e7\u00e3o e passou a enunciar cada um dos factos, acenando com a cabe\u00e7a a cada um: \u00abespera&#8230; ent\u00e3o tu vais viajar para a B\u00f3snia, visitar uma mi\u00fada que conheceste <em>online, <\/em>com a qual falaste apenas em chamadas, sem qualquer v\u00eddeo, e vais fazer tudo isso com meia perna?\u00bb. Perante a minha anu\u00eancia, olhou para mim uma vez mais em sil\u00eancio, pensou um pouco, e sacou ent\u00e3o do telem\u00f3vel, dizendo-me que apontasse o n\u00famero de telefone dele. E que, se eu precisasse de ajuda enquanto ele estivesse em Mostar, que ele tinha uma arma.<\/p>\n\n\n\n<p>E assim come\u00e7ou uma bela amizade. Escusado ser\u00e1 dizer que n\u00e3o, n\u00e3o precisei de armas em Mostar, mas, nos anos seguintes, o Damir ajudou-me muito e muitas vezes. Durante a pandemia, serviu-me de \u00abmula\u00bb para entregar flores \u00e0 MFE e foi um grande apoio durante os meses em que n\u00e3o foi poss\u00edvel vermo-nos, transportando-me at\u00e9 em segredo para eu surpreender a MFE numa visita inesperada. Durante o pico da loucura covidiana, ofereceu-se inclusive para me enviar o seu cart\u00e3o de cidad\u00e3o para eu me fazer passar por ele na fronteira entre a Cro\u00e1cia e a B\u00f3snia (cidad\u00e3os croatas tinham outros privil\u00e9gios para visitar o pa\u00eds na altura). N\u00e3o o fiz, mas realmente ele est\u00e1 parecido comigo na foto do documento em quest\u00e3o, e a criatura at\u00e9 tentou incentivar-me a faz\u00ea-lo, dizendo que j\u00e1 que eu falava alem\u00e3o, devia fingir que era filho de refugiados croatas na Alemanha, e que nunca aprendera croata. Tudo isto porque, nas palavras do pr\u00f3prio, \u00ab\u00e0 conta disso, fico com um \u00e1libi brilhante se tu passares a fronteira com o meu CC\u00bb. Porque nos Balc\u00e3s \u00e9 assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem desfazer de amigos meus de longa data, acabei por quebrar a tradi\u00e7\u00e3o e pedir ao Damir que fosse meu padrinho de casamento, porque, sem ele, eu e a MFE ter\u00edamos passado por dificuldades maiores ainda, e quem sabe se hoje estar\u00edamos onde estamos. Agora, chegou a vez do Damir dar o n\u00f3, e irei com todo o gosto a Zagrebe no ano que vem para estar presente no evento. Por ser quem \u00e9, por ter sido o meu salvador, e por ser o respons\u00e1vel por <a href=\"https:\/\/t.me\/filipefariallaryia\/196\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">esta<\/a> p\u00e9rola do vern\u00e1culo croata. <em>Hvala ti, prijatelju, i sve najbolje.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns tempos, quando fazia no Telegram os relatos da saga que foi conhecer, visitar, casar e tratar da burocracia interfronteiri\u00e7a do casamento com a minha agora esposa, cheguei a fantasiar escrever um livro com base nessas aventuras. 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