{"id":552,"date":"2010-05-05T19:55:01","date_gmt":"2010-05-05T18:55:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/?p=552"},"modified":"2010-05-05T19:55:01","modified_gmt":"2010-05-05T18:55:01","slug":"cumplicidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/2010\/05\/05\/cumplicidades\/","title":{"rendered":"Cumplicidades"},"content":{"rendered":"<p>Esta entrada ser\u00e1 um pouco mais pessoal do que aquilo que \u00e9 habitual, pese embora a minha garantia de que isto n\u00e3o \u00e9 um blogue. Correndo o risco de parecer incoerente, esta minha \u00faltima sess\u00e3o na Feira do Livro de Lisboa foi palco de um evento que, pela sua insistente recorr\u00eancia, me levou a partilhar o meu agravo.<\/p>\n<p>Em Fevereiro passado, o meu colega <em>presencial <\/em>David Machado escreveu uma <a href=\"http:\/\/blogtailors.blogspot.com\/2010\/02\/opiniao-o-valor-das-palavras-por-david.html\" target=\"_blank\">cr\u00f3nica muito interessante<\/a>, na qual conseguiu p\u00f4r em palavras aquilo que muitos autores certamente ter\u00e3o j\u00e1 pensado numa ou noutra altura das suas carreiras liter\u00e1rias: nomeadamente o \u00abvalor das palavras\u00bb, ou, em termos laicos e um pouco mais prosaicos, \u00aba forma como autores s\u00e3o chulados de forma conivente\u00bb. Passo a explicar.<\/p>\n<p>Durante a minha sess\u00e3o, recebi um convite para visitar uma escola cujo nome n\u00e3o ser\u00e1 referido, at\u00e9 porque a minha queixa n\u00e3o diz respeito aos respons\u00e1veis da escola em quest\u00e3o, mas sim \u00e0 atitude generalizada com que se lida com autores. Falou-se de datas, de horas, e de como organizar a sess\u00e3o, e houve inclusive espa\u00e7o para citar nomes de pessoas famosas para fins de auto-promo\u00e7\u00e3o. At\u00e9 a\u00ed, tudo bem, mas ent\u00e3o chegou a hora da fat\u00eddica pergunta acerca do provimento da escola para um evento desse g\u00e9nero, cuja resposta veio inicialmente na forma de um momento de desconfort\u00e1vel sil\u00eancio, seguido da afirma\u00e7\u00e3o de que \u00abpor norma, quando convidamos, n\u00e3o \u00e9 costume&#8230;\u00bb e as mais ruidosas retic\u00eancias que ouvi em toda a minha vida. Expliquei que era esse o meu procedimento, e ficou-se de acertar detalhes numa ocasi\u00e3o posterior, que estou razoavelmente certo que nunca ter\u00e1 lugar.<\/p>\n<p>Confesso que fiquei algo irritado; n\u00e3o com as pessoas em quest\u00e3o, mas por ter tido o desprazer de ver novamente tal atitude mostrar a sua cara feia. Em Portugal, e tal como o David Machado muito bem o disse:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>&#8230; a actividade principal de um escritor \u00e9 escrever livros e&#8230; depois disso, existem uma s\u00e9rie de trabalhos paralelos que complementam e se cruzam com os livros que escrevemos. Em rela\u00e7\u00e3o a isso, o maior equ\u00edvoco \u00e9 o facto de estes trabalhos paralelos serem muitas vezes encarados por toda a gente (autores inclu\u00eddos) como promo\u00e7\u00e3o dos livros publicados e, como tal, n\u00e3o devem ser pagos.<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 certamente novidade para muita gente, e n\u00e3o tenho pretens\u00f5es de achar que a minha presen\u00e7a ou o meu contributo numa escola valem mais que os de esta ou daquela figura p\u00fablica que n\u00e3o cobrou nada para comparecer, mas cada um valoriza o seu trabalho como bem entende, e acontece que eu acho que o meu vale 100\u20ac mais despesas de transporte e alimenta\u00e7\u00e3o [o portugu\u00eas n\u00e3o gosta de falar de rendimentos, raz\u00e3o pela qual muitos autores n\u00e3o sabem o que cobrar, e muitas editoras n\u00e3o sabem recomendar um valor. Que fique aqui registado, ent\u00e3o, para quem quiser comparar ou ter no\u00e7\u00e3o]. Segundo me foi dado a entender por quem at\u00e9 hoje recusou, h\u00e1 muitos autores que n\u00e3o cobram, assumindo que a promo\u00e7\u00e3o da sua obra \u00e9 pagamento quanto baste, mas a meu ver essa \u00e9 uma ideia err\u00f3nea e que apenas garante a continuidade daquilo que n\u00e3o passa de uma forma ligeira de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tenho muito gosto em viajar pelo pa\u00eds fora e falar com os alunos e professores, mas as duas (ou mais) horas durante as quais estou a falar e a gesticular &#8211; para n\u00e3o falar nas horas de viagem &#8211; s\u00e3o horas nas quais n\u00e3o estou a escrever ou a traduzir, e acontece que escrever e traduzir \u00e9 o meu ganha-p\u00e3o. E os comboios, portagens e gasolina n\u00e3o se pagam com a \u00abconvers\u00e3o\u00bb de um aluno ou outro, ou com o livro da praxe que os respons\u00e1veis frequentemente se v\u00eaem obrigados a comprar por uma quest\u00e3o de cortesia. Pode haver quem me tome por unhas-de-fome ou picuinhas por isso, mas eu dou valor ao meu tempo, e acho que mais autores deveriam fazer o mesmo, porque enquanto houver quem esteja disposto a \u00ab<em>trabalhar de gra\u00e7a<\/em>\u00bb, a situa\u00e7\u00e3o dificilmente mudar\u00e1, e n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o nenhuma para que assim o seja.<\/p>\n<p>Os tempos n\u00e3o est\u00e3o f\u00e1ceis para ningu\u00e9m, \u00e9 certo, e a cultura \u00e9 sempre das primeiras a sofrer, mas ao longo de oito anos estive j\u00e1 em escolas, c\u00e2maras, bibliotecas e feiras suficientes para saber que ningu\u00e9m fica a passar fome s\u00f3 por causa do cach\u00ea de um autor, e que aqueles que se recusam a pagar o fazem apenas porque sabem que encontrar\u00e3o outro que n\u00e3o cobre nada (salvo raras excep\u00e7\u00f5es de escolas que est\u00e3o mesmo a passar por maus len\u00e7\u00f3is). Esta realidade torna-se tanto mais escandalosa quando grandes empresas de retalho se recusam at\u00e9 a cobrir as despesas de desloca\u00e7\u00e3o de autores que residam a mais de x quil\u00f3metros do local de uma feira do livro, e essa mesma feira do livro decorre sem que ningu\u00e9m se insurja. Sim, aconteceu; e n\u00e3o, n\u00e3o compareci.<\/p>\n<p>Acredito que muitos autores ter\u00e3o as suas pr\u00f3prias raz\u00f5es para n\u00e3o cobrarem, seja por encararem tais iniciativas como um contributo \u00e0 cultura, por terem escrito um <em>best-seller<\/em>, por terem asas, ou porque t\u00eam familiares, amigos ou caras-metades que aproveitam a ocasi\u00e3o para fazer uma viagem, e quanto a isso n\u00e3o h\u00e1 muito que eu possa dizer. Cada um valoriza o seu tempo e trabalho como bem entender. Mas sei tamb\u00e9m que h\u00e1 muitos autores que, quer por timidez, ignor\u00e2ncia ou por influ\u00eancia das editoras (que naturalmente s\u00f3 t\u00eam a ganhar com publicidade gratuita) escolhem n\u00e3o levar nada pelo seu contributo, e isso sim, est\u00e1 profundamente errado. \u00c9 uma pr\u00e1tica contraproducente que se tornou uma conven\u00e7\u00e3o, tal como ir passear com a fam\u00edlia aos centros comerciais nos fins-de-semana, e n\u00e3o tem raz\u00e3o nenhuma para existir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta entrada ser\u00e1 um pouco mais pessoal do que aquilo que \u00e9 habitual, pese embora a minha garantia de que isto n\u00e3o \u00e9 um blogue. Correndo o risco de parecer incoerente, esta minha \u00faltima sess\u00e3o na Feira do Livro de Lisboa foi palco de um evento que, pela sua insistente recorr\u00eancia, me levou a partilhar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-552","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ao-vivo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/552","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=552"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/552\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=552"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=552"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.allaryia.com\/pearnon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=552"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}