Novos Titãs

titasEsta quinta-feira, sai para as bancas um volume de cuja ausência muitos leitores se queixaram com razão nas anteriores colecções DC. Por vários motivos, não foi até aqui possível publicar O Contrato de Judas, mas eis que este marco da história dos comics está por fim disponível em português de Portugal.

Para quem não sabe, nos anos 80, os Novos Titãs eram a única coisa na indústria que conseguia fazer frente aos X-Men – o incontestado monstro de vendas da época – chegando mesmo a superá-los em certas alturas. Agora, os leitores portugueses terão ocasião de constatar por que motivo Marv Wolfman e George Pérez foram das mais bem-sucedidas duplas criativas da década de 80, criando com os Titãs um fenómeno que até hoje não mais foi possível replicar.

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Entrevista

Por ocasião da publicação d’A Alvorada dos Deuses e do que o isso significa para os meus planos autorais, a Sofia “Bran Morrighan” Teixeira fez-me mais uma das suas entrevistas sem papas na língua nem medo de perguntas que outros entrevistadores têm mais pejo em fazer. Podem comprovar aqui se eu correspondi ou não com franqueza ao seu desbocamento.

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O Audaz e o Destemido

flvAmigos para sempre

A morte de Barry Allen, o segundo Flash, após a Crise nas Terras Infinitas, como que espoletou uma reacção em cadeia na década seguinte: o Super-Homem morreu, o Batman ficou inválido, a Mulher-Maravilha foi deposta, o Lanterna Verde foi corrompido e sacrificou-se, e o Arqueiro Verde deu também ele a vida. Todos esses heróis foram substituídos, uns temporariamente, outros naquela que parecia ser uma mudança definitiva, o que, sem demérito dos seus substitutos alguns dos quais criaram as suas próprias lendas e legados, tais como Wally West com o manto do Flash e Kyle Rayner com o do Lanterna Verde fez da década de 90 uma época de grandes incertezas nos comics. Como é evidente, a reacção nostálgica de quem crescera a ler as histórias desses heróis falecidos seria inevitável, tal como se veio a verificar após o virar do milénio. Um dos arautos das mudanças que viriam nos anos seguintes foi sem sombra de dúvida Flash/Green Lantern: The Brave and the Bold, uma mini-série lançada entre 1999 e 2000, que revisitava uma das mais sinceras amizades da DC Comics. E logo aquela entre dois dos seus mais icónicos heróis que, à altura e contra todas as regras do meio e da sua natureza cíclica, permaneciam mortos.

O Flash (Barry Allen) e o Lanterna Verde (Hal Jordan) conheceram-se pela primeira vez em The Brave and the Bold #28 (EUA, 1960), naquela que foi também a estreia da Liga da Justiça, mas a primeira parceria individual entre os dois só se daria dois anos mais tarde em Green Lantern #13 (EUA, 1962), numa aventura em que ambos têm de unir esforços para vencer uma ameaça alienígena, e acabam por confiar as suas identidades um ao outro. Ao contrário do que acontecera com o Super-Homem e o Batman, em que as identidades secretas de ambos foram reveladas por acidente no primeiro encontro entre os dois, o Flash e o Lanterna Verde deixavam logo à partida claro que a sua amizade se iria pautar por trâmites diferentes, com uma camaradagem genuína que ia muito para além do respeito mútuo que unia os Melhores do Mundo. E assim foi, com um companheirismo e cumplicidade que cresceram e se desenvolveram ao longo dos anos, mesmo a nível extra-narrativo, quando a revista do Flash foi a escolhida para acomodar as histórias do Lanterna Verde entre 1972 e 1976, em virtude do cancelamento da revista do Gladiador Esmeralda. Uma amizade que foi cruelmente interrompida com a morte de Barry Allen na Crise das Terras Infinitas, sem que os dois amigos tivessem sequer ocasião de se despedir, e que tornou mais saudosa ainda e talvez até mesmo algo romantizada em retrospectiva a amizade entre ambos, tal como Mark Waid e Tom Peyer a revisitam neste O Audaz e o Destemido.

Detentor de um conhecimento quase enciclopédico acerca do Universo DC, Waid tratou de desenterrar todo um rol de personagens e referências obscuras com que polvilhar esta deliciosa viagem ao passado, num complicado exercício de equilíbrio o entre certificar-se de que leitores de longa data se sentiriam reconfortados e o não contar uma história demasiadamente hermética para novos leitores. O facto de Waid e Peyer terem conseguido fazê-lo é testemunho da sua habilidade enquanto contadores de histórias, pois fizeram da continuidade uma ferramenta para explicar a razão de ser da amizade entre Barry Allen e Hal Jordan, da mesma forma que velhos amigos reminisceriam acerca de eventos passados que um ouvinte poderia desconhecer, mas que facilmente compreenderia devido ao contexto em que eles eram contados. Desta forma, a nostalgia torna-se apenas num adereço agradável para quem a aprecia, uma ferramenta para contar a história em vez da razão de ser da própria história a começar pela clássica e nada subtil divisão de cinco das seis aventuras em três “partes” ou “capítulos”, uma convenção de décadas dos comics de super-heróis. A devida homenagem é também prestada aos mais importantes criadores do Flash e do Lanterna Verde, cujos nomes aparecem clara mas discretamente expostos logo na primeira aventura, num painel que honra os incontornáveis nomes associados aos dois personagens, e O Audaz e o Destemido está repleto destes pequenos piscares de olho ao leitor mais atento e conhecedor, que dão mais cor ao mundo e à história mesmo para aqueles a quem nada dizem. No campo da arte, temos Barry Kitson, um dos representantes artísticos da invasão britânica dos comics do final dos anos 80, que se destacou na DC com o seu trabalho na mini-série JLA: Year One e no título L.E.G.I.O.N., dois projectos em que também trabalhou com Mark Waid, com o qual viria a unir forças novamente em 2004 para relançar a Legião dos Super-Heróis. O seu traço de linhas limpas, a composição irrepreensível e os rostos extremamente expressivos dos personagens que desenha fizeram dele o artista ideal para uma história que se queria em igual medida clássica e moderna, embora fosse apenas o arte-finalista de um dos números deste volume, que contou com a mão de Tom Grindberg. Outro artista britânico, Grindberg fez um excelente trabalho a tentar evocar o traço do inimitável Neal Adams na história que conta com o Arqueiro Verde, e que canaliza na perfeição o espírito da época em que este herói fez parceria com o Lanterna Verde para percorrer a América e reavaliar as suas prioridades e perspectiva do mundo (tal como os leitores portugueses tiveram ocasião de ler no volume Inocência Perdida, da primeira colecção da DC Comics publicada pela Levoir).

O Super-Homem e o Batman podem ser os dois maiores nomes da DC e de toda a indústria dos comics. Na DC, os dois formam a chamada Trindade com a Mulher-Maravilha, a dos três mais icónicos e duradouros personagens da editora. E a essa Trindade juntaram-se duas cartas fora do baralho na forma do Flash e do Lanterna Verde, também eles ícones, mas a uma dimensão inferior à dos outros três: dois amigos que, como acontece na dinâmica de qualquer grupo, acabaram naturalmente por formar o seu próprio sub-grupo. Dois homens a toda a linha diferentes, com personalidades contrastantes, poderes dissonantes e mundos em nada relacionados um com o outro. Mas, ao passo que o Super-Homem e o Batman são amigos quase por obrigação, como se o seu estatuto de maiores entre os seus iguais a isso os obrigasse (“Os teus dois heróis favoritos juntos numa aventura!”, já dizia World’s Finest Comics #71 aquando do segundo encontro entre o Homem de Aço e o Cavaleiro das Trevas), a amizade entre o Corredor Carmesim e o Gladiador Esmeralda desabrochou de forma orgânica e natural ao longo das décadas. Não é, aliás, por acaso que, logo no primeiro volume desta colecção, quando os restantes membros da Liga da Justiça ainda nem sequer se conheciam, já o Flash e o Lanterna Verde dão mostras de grande cumplicidade e revelam ter já vivido algumas aventuras juntos. São o Palhaço Branco e o Palhaço Augusto, o Polícia Bom e o Polícia Mau, o indivíduo fiável que não é divertido em festas e a alma da festa na qual não se pode confiar. São dois heróis que souberam dar os empurrões necessários à DC Comics quando a Trindade não pôde valer à editora, tal como o Flash o fez ao ser o arauto da Era da Prata e o Lanterna Verde o fez com uma série de importantes sagas de extraordinário sucesso no final da primeira década do novo milénio. São o Audaz e o Destemido, e esta é a história da sua amizade única, que os Novos 52 ressuscitaram para os tempos modernos e cujo legado este volume homenageia.

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Flash e Lanterna Verde

flvHoje nas bancas, uma autêntica aventura para todas idades com o meu segundo e quarto heróis preferidos: Flash e Lanterna Verde. Um deles anda em alta, com uma muito bem recebida série de televisão; o outro ainda está a recuperar do fracasso que foi o seu filme de há uns anos para cá, mas tanto um como o outro são esteios da DC Comics. Um par de esteios que sempre partilharam uma relação de amizade muito própria, e é essa relação o foco deste O Audaz e o Destemido, que consegue aliar muito bem as sensibilidades mais sofisticadas do leitor moderno com as peculiaridades do passado que dão aos comics de super-heróis o seu tão peculiar encanto.

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Saga das Trevas Eternas

legiao
Entre o passado e o futuro

Três jovens heróis do séc. XXX viajaram até ao séc. XX para conhecerem a lenda que os havia inspirado, convidando-o de seguida para viajar com eles até ao futuro e juntar-se ao “clube dos super-heróis” por eles formado. Assim reza a história em Adventure Comics #247 (EUA, 1958), naquele que não se queria como mais que um fait divers na vida do Super-Homem, o personagem principal desse periódico, que relatava as aventuras da sua juventude a par da revista-irmã Superboy. No entanto, a imaginação dos leitores foi estimulada por esses três jovens heróis do futuro e a “Legião” à qual eles pertenciam, e o interesse manifestado não passou despercebido a Mort Weisinger, o lendário editor da família de títulos do Super-Homem. Sempre atento às opiniões dos leitores e mais que disposto a fazer uso de uma boa ideia quando ela lhe era apresentada, Weisinger fez parceria com os que lhe enviavam sugestões interessantes e, juntos, foram dando forma à Legião à medida que o grupo se ia tornando parte integrante de Adventure Comics. Novos heróis foram criados e líderes da Legião foram eleitos, e Weisinger foi também astuto o suficiente para perceber quais os leitores que tinham estofo de escritores, abrindo as portas a talentos como Jim Shooter, E. Nelson Bridwell e Cary Bates, todos eles futuros argumentistas de histórias do grupo. Era nesta síntese entre o passado e o presente, na forma de um editor adulto e os leitores jovens, que se ia forjando o futuro em que vivia a Legião dos Super-Heróis.

No entanto, apesar de ter ganhado fama suficiente para passar a partilhar com Superboy o título e o protagonismo da sua própria revista no início dos anos 70, a Legião dos Super-Heróis foi provando ser um desafio complicado para muitos autores nas décadas subsequentes. A começar pelo número de personagens, que faziam jus ao título do grupo e eram um autêntico pesadelo para muitos artistas, tal como viria a descobrir Murray Boltinoff, editor de Superboy and the Legion of Super-Heroes. Parafraseando o próprio: na altura, havia pouca gente a trabalhar na indústria dos comics por amor ao meio e aos personagens, e a maior parte dos artistas preferia um único protagonista cujas aventuras ocorressem no presente, do que uma verdadeira “legião” com dezenas de personagens que viviam no futuro, e que, ainda por cima, tinham fãs tão fervorosos, participativos e exigentes. Havia ainda o preconceito de que a Legião e os seus leitores se tornaram alvo em décadas subsequentes, devido a idiossincrasias como a excentricidade das aventuras e dos poderes de alguns dos Legionários, ou os nomes de personagens que, já jovens adultos, continuavam a ter lad, lass, boy ou girl nos cognomes. A agravar este problema, a Legião raramente conseguiu afirmar-se como algo de verdadeiramente futurista, fosse embora essa a essência das suas aventuras. Podia haver gelatarias com sabores intergalácticos, mas quem servia os gelados era um indivíduo com avental e um clássico casquete branco; podia haver robôs nas escolas, mas os alunos continuavam a sentar-se em cadeiras enquanto o professor leccionava diante de um quadro; podia haver alienígenas num bar e bebidas com nomes estranhos, mas o proprietário continuava atrás do balcão a limpar copos com uma toalha, e assim por diante. O ambiente social, a linguagem, tudo era estranhamente contemporâneo, apesar de as histórias decorrerem 1000 anos no futuro e pela galáxia fora, e embora isso não tivesse impedido que grandes e memoráveis aventuras da Legião fossem contadas, faltava uma unidade de efeito ao séc. XXX, uma visão unificada que guiasse a abordagem a tão único grupo de heróis. Assim, não é grande surpresa que, durante a década de 70, a Legião tivesse tido nada menos que nove argumentistas, vinte e um artistas e quatro editores diferentes, todos incapazes de conciliarem verdadeiramente o passado excêntrico do grupo com o futuro vanguardista em que ele supostamente militava… até que um desses nomes regressou para inverter essa tendência de uma vez por todas.

Paul Levitz tinha já escrito cerca de duas dúzias de histórias dos Legionários durante os últimos anos da década de 70, e regressou à revista em 1981. O argumentista reambientou-se ao séc. XXX, tirando proveito das lições que aprendera e fazendo uso da sua familiaridade com os membros do vasto grupo, o que lhe permitiu trazer a necessária estabilidade e consistência ao título, antes de começar a dar-lhe a direcção que viria a redefinir a Legião dos Super-Heróis. Um processo que se iniciou em definitivo a partir do momento em que Keith Giffen entrou em cena, em Legion of Super-Heroes #285 (EUA, 1982), pois Giffen era fã assumido da Legião e começava a revelar-se como um dos mais empolgantes talentos artísticos da DC, um autodidacta que bebia de várias fontes e influências e que trouxe ao livro um traço arrojado, experimental e bem distinto — em suma, exactamente aquilo de que a Legião dos Super-Heróis precisava e os resultados não tardaram a fazer-se sentir. Com Levitz e Giffen ao leme (e com menção honrosa para a arte-final de Larry Mahlstedt), o séc. XXX ganhou vida e forma, à medida que os dois construíam metódica e detalhadamente um universo de ficção científica que, com o passar dos meses, se ia tornando cada vez mais verosímil e cativante. A arte de Giffen dava vida ao futuro, cunhando-o com uma estética muito própria e indubitavelmente futurista, mas estes pormenores artísticos de pouco teriam importado, não fosse a exímia habilidade de Levitz para entretecer tramas secundárias e o enredo principal, e fazer uso do vasto (e ainda crescente!) leque de personagens do mundo da Legião, com uma rotatividade que assegurava que havia sempre algo a acontecer e a desenvolver-se com algum personagem. E fê-lo de uma forma exímia, que lhe permitiu deixar pendentes uma série de desenvolvimentos em que mais tarde podia pegar de forma natural, gerindo a Legião numa mistura perfeita de melodrama, aventuras super-heróicas no cosmos e um abordar das questões sociológicas no espaço pós-colonial do futuro.

A genuína paixão e inegável talento da dupla Levitz/Giffen foi a resposta às preces dos fãs da Legião, e a revista tornou-se num dos títulos da linha da DC com maior sucesso da década de 80, que é quase unanimemente considerada a melhor era da história do grupo, muito por culpa do autêntico trampolim para o estrelato que foi a aventura que o leitor agora tem em mãos. A Saga das Trevas Eternas foi construída aos poucos, prenunciada com um painel sinistro aqui, uma aparentemente inconsequente aventura ali, até culminar num épico de cinco partes explosivas, com um vilão à altura completamente inesperado, e um enredo meticulosamente urdido por dois artistas na plenitude dos seus poderes criativos. Leitores novos da Legião poderão porventura sentir-se algo perdidos de início, mas é precisamente isso o que deve acontecer: devem deixar-se imergir no vasto e fantástico universo criado por Levitz e Giffen, emaranhar-se na complexa rede de relações interpessoais entre os Legionários, e perder-se nas coloridas personagens secundárias e terciárias que lhe dão cor — em suma, devem deixar-se levar por um verdadeiro clássico dos comics, que continua a ser de leitura obrigatória para qualquer autor que ambicione escrever um épico super-heróico com alma e personalidade. Porque, às vezes, não há nada como reexaminarmos o passado para redefinirmos as nossas expectativas do futuro.

Longa Vida à Legião!

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