Ainda não comecei a escrever o próximo livro, nem o farei antes de A Última Crónica ser publicada, mas já estou a sentir uma dificuldade: adaptar o meu léxico a outra época
Ao longo de mais de duas décadas, moldei todo um ideário medieval que me acompanhou em praticamente todos os meus projectos, à parte a Leopoldina e o Quatro Histórias Com Barão. Tenho uma imagética bem definida, uma biblioteca visual à qual recorro de forma já praticamente instintiva, e uma ideia razoavelmente sólida do que era ou não apropriado para a época. Caramba, tenho um documento de 54 páginas que me serviu de fiel glossário ao longo de todos estes anos, dividido por categorias como Arquitectura, Combate Contundente, Mobília e Decoração ou Toponímia, e no qual não figura uma única palavra que não fosse apropriada para um mundo medievalesco fictício, onde não existem roupas, minerais ou produtos orgânicos que não se encontrem na nossa Eurásia.
Agora, ainda sem entrar em grandes detalhes, estou prestes a embarcar numa aventura que, à falta de descrição melhor, defino como «Cavaleiros do Zodíaco Bíblicos». Vou passear por climas e topografias que nunca cheguei a descrever. Terei de me situar a cerca de 500 d.C., quando passei mais de vinte anos no equivalente ao séc. XV. Estive imerso numa cultura fantasiosa de influências manifestamente europeias, quando agora vou meter ao barulho o Império Sassânida, o Reino de Axum, a Ibéria Caucasiana e quejandos. Em suma, ainda nem cheguei a debruçar-me quanto à forma de explorar os novos conceitos e toda uma nova narrativa, porque vou ter de adaptar o meu vocabulário e a minha «voz» antes de sequer começar a fazê-lo. E ainda tenho um bom punhado de livros medievais na minha lista de leitura…
Enfim, será um desafio. Como as Crónicas o foram, embora estas já se tivessem tornado parte de mim. Agora, é decididamente hora de partir para um outro mundo.
