Betrayal in Antara

Há já algum tempo que não falo de jogos, e mais tempo ainda que não jogo nada. Mas, por um qualquer motivo, lembrei-me recentemente deste em particular, que, na subtil abrangência que o caracteriza, foi mais influente do que eu alguma vez imaginara.

Lembro-me bem de que foi o primeiro mundo «aberto» em que me aventurei, e foi para mim a experiência tardia que malta mais batida já tinha tido com jogos da série Ultima, por exemplo. O enredo afunila muito as escolhas, e há mais ilusão de liberdade do que liberdade propriamente dita, mas não deixou de ser o primeiro grande mapa que explorei como se de um mundo se tratasse, em vez de apenas uma sucessão de níveis a ultrapassar para chegar ao fim.

Trata-se de um jogo com várias limitações e senãos, tanto gráficos como de jogabilidade, mas faz muitas coisas bem, e o seu enredo cativa ao longo de umas boas 70 horas, acabando de uma forma satisfatória e frustrante ao mesmo tempo («realista», pareceu-me na altura). O mundo pode ser visualmente pouco detalhado, mas está cheio de pormenores que lhe conferem um aspecto «vivido», e cada localidade visitada tem algo a oferecer, mesmo que não contribua para a narrativa geral. É algo que hoje em dia se espera de qualquer RPG que se preze, mas, para mim, foi algo de completamente novo na altura.

Allaryia deve algumas coisas ao Betrayal in Antara. A cidade-estado de Sicoro, por exemplo, foi uma homenagem algo rebuscada a Ticoro, a capital de uma das províncias do jogo, onde se passa um capítulo inteiro da história. As politiquices deste mundo em grande parte tirante a uma Península Italiana pré-unificação foram também uma grande influência para o meu eu mais jovem e ainda pouco conhecedor de história, moldando as cidades-estado de Nolwyn. E, no prólogo, a descarga de energia mágica desenfreada de uma das personagens terá sem dúvida dado o mote para como a Essência veio mais tarde a ser utilizada na sua forma mais pura pelos magos allaryianos.

Aquilo que o torna mais especial, porém, foi o meu contacto pessoal com o produtor principal do Betrayal in Antara, um tal de Peter Sarrett, que decidi melgar do nada, em 2001, cinco anos após o lançamento do dito. Já não me lembro como obtive o contacto, mas creio que, à data, ele trabalhava como editor de uma revista de jogos, e mandei-lhe um e-mail a agradecer-lhe sinceramente as boas memórias que o jogo me tinha deixado. O senhor foi extremamente amável e agradecido na resposta, e tivemos um pequeno colóquio, no qual ele me falou um pouco da história da criação do jogo e me deu umas dicas para extrair a música do dito, pois havia uma série de canções espalhadas por tabernas e estalagens pelo mundo fora, e nunca chegou a ser lançada uma banda sonora oficial de Betrayal in Antara. E é com uma das faixas desta que vos deixo, saudosa q.b. para ser apropriada ao momento em que publico esta entrada.