Lista de reprodução sinestésica

Como estou numa fase intro- e retrospectiva, tenho-me lembrado de várias coisas dos anos que passei a escrever as Crónicas. E, da mesma forma que recordações do Baldur’s Gate II desencadeiam em mim um processo sinestésico que me faz sentir o sabor de Bake Rolls de alho (lembram-se deles?) – o meu petisco de eleição nas minhas noitadas de jogatana – há também várias músicas que, sempre que as oiço, me remetem para os anos em que escrevi determinado livro. Segue então uma pequena lista de reprodução alusiva a cada um dos volumes (excepto A Última Crónica, que ainda nem foi lançado, e seria estranho estar a antecipar uma retrospectiva).

Mountains – Manowar

Não tenho falado muito deles nos últimos anos, mas os Manowar foram provavelmente a banda que mais me marcou, e Mountains é a minha música favorita deles. Antes de sequer saber o que «profundo» era, embrenhava-me nas letras desta digressão existencial por via do power metal, cujo conceito até serviu como mensagem motivacional no velhinho allaryia.cjb.net. Incluí o refrão da música na minha entrada no álbum de finalistas, e a própria noção do além em Allaryia foi por ela influenciado – daí a história do «que tenha alcançado o pináculo da sua montanha».

Não tenho como garantir que foi esta a música que mais vezes ouvi durante o período dos 12 aos 20 anos de idade, mas não houve nenhuma outra que eu associe de forma tão veemente a eles e que tenha deixado marcas mais evidentes, por isso merece o primeiro lugar do pódio da adolescência e do fim da dita, quando A Manopla de Karasthan foi forjada.

Theology/Civilization – Basil Poledouris

Um clássico, e uma das melhores bandas sonoras da história do cinema. Tive a minha primeira campanha a sério de Dungeons & Dragons durante a transição do liceu para a faculdade, altura em que estava a escrever Os Filhos do Flagelo, e esta música traz-me sempre de volta a esse tempo, porque criei uma banda sonora «oficial» da campanha, e nenhuma outra faixa foi tantas vezes repetida como esta, porque, sempre que havia uma viagem, os próprios jogadores faziam questão de entoar o refrão antes de eu sequer pôr a aparelhagem a tocar. Até hoje, continua a evocar paisagens fantásticas e uma aventura infinita à espera, e era precisamente isso o que eu sentia nesses tempos.

Precious Jerusalem – Blind Guardian

Nada que ver com o Marés Negras, nem o influenciou de forma alguma. Mas esta música estará para sempre a ele associada, porque o terceiro volume das Crónicas teve o processo de escrita mais intenso e rápido de todos, e apanhou o verão quente de 2003. É estranho, porque esta está longe de ser a minha música favorita dos Blind Guardian, mas basta-me ouvir os acordes iniciais para visualizar a janela incandescente do meu quarto, o sol a bater de chapa no tijolo dos degraus que a ela levavam, e longas tardes e noites a dar vida a Tanarch e Asmodeon durante o verão allaryiano. Foi a música da estação, e acabou por ser o hino do próprio livro.

First Light – Guild Wars

O Guild Wars foi um jogo que esgalhei bem esgalhadinho. Horas e horas de diversão e momentos bem passados com amigos, e até cheguei a ter um antigo «detractor» das Crónicas como membro da guilda da qual eu era líder (demo-nos bem). A Essência da Lâmina não condiz de todo com a paz bucólica desta música, mas esta é a que me transporta com mais carinho e brandura para esses tempos.

1, 2 Selfoss – Love Guru

Nas palavras dos Monty Python: «e agora algo completamente diferente». Esta é um pouco batota, porque não foi bem a música que marcou o período de escrita do Vagas de Fogo, mas foi a que esteve mais presente na minha primeira ida à Islândia, na qual foram plantadas as sementes que deram vida aos Fiordes dos Piratas. À falta de explicação melhor, o Love Guru é um Scooter (sim, sei que é uma banda) com o dobro do peso e metade da voz, cujo 1, 2 Selfoss (algo como 1, 2 Arrentela) se tornou um hino à libertinagem da noite islandesa. A música é descarada e ironicamente dedicada à vila de Selfoss, na qual a banda Scooter alegadamente era popular.

Não sou, nem nunca fui, frequentador do tipo de ambientes em que este tipo de música toca. Gosto ironicamente dela apenas pelas memórias que me traz. E, tanto quanto sei, não há nada do Love Guru no Vagas de Fogo. Mas não tenho como negar que foi a música do período, porque estava por todo o lado na Islândia, porque amigos meus a adoravam de forma totalmente não-irónica, e porque a minha família viking fez questão de partilhar comigo tudo o que podia do Love Guru. Até se prontificaram a levar-me a Akureyri, a «capital do norte» da Islândia, só para eu ver um pouco mais do país e poder assistir ao vivo a um concerto da criatura, que decorreu no mesmo recinto onde teve lugar o concurso de Miss Norte. Por cujos bastidores deambulei, metendo conversa com as participantes e com os responsáveis pelo evento, só porque sim e porque era estrangeiro. Tudo arbitrário. Esdrúxulo. Inconsequente. E, como podem ver, profundamente marcante.

O Fado da Sombra foi escrito numa altura um pouco mais conturbada da minha vida. Esta música não o é, e os Faun até são uma banda porreira de folk pagão com músicas animadas, mas a cadência esparsa e meditativa desta Egil Saga remetem-me para esses tempos, e o tempo rubato de certas partes traduzem bem a confusão que por aqui andava nesta cabeça em 2008-2009. Felizmente, o livro acabou por sair bem, mas não é uma época que alguma vez queira revisitar, embora continue a ouvir os Faun com todo o gosto.

Dragon Age Origins

Não joguei este jogo logo quando saiu, mas joguei-o muito e bem assim que comecei. Era um jogo à Baldur’s Gate como já não se via desde que este último fora lançado, e a banda sonora acompanhou-me muito para além do tempo que passei a jogá-lo. O Oblívio não tirou dele qualquer inspiração, mas a minha imaginação agradeceu os tempos passados neste mundo de fantasia heróica negra, que sem dúvida ajudou a criar a atmosfera apropriada na minha paisagem mental enquanto escrevia o livro.

Powersnake – Brothers of Metal

Dubrovnik. Casamento balcânico. Sol estuante a fazer estalar o calcário croata da Costa do Adriático. A certeza de que o meu par na boda a que assistimos iria ser a minha mulher. E, por uma qualquer razão, uma música acerca de uma serpente mitológica escandinava. A Oitava Era já tinha sido publicada um mês antes, e eu tinha conhecido os Brothers of Metal quando o livro já estava praticamente concluído, mas a música ficou associada a ele na minha mente, mesmo assim. A sonoridade tem o seu quê de regresso triunfal, embora a letra não trate disso, e coadunou-se bem com o reatar de relações com velhos amigos com toda uma nova verve de alguém cuja vida estava prestes a mudar bastante e para bem melhor.

Return to Monkey Island

Já aqui discorri acerca de macacadas e do quão especial é o lugar que a série Monkey Island ocupa no meu coração, bem como da desilusão que o sexto capítulo acabou por ser, mas isso não apaga a alegria que foi saber, na altura, que a série teria mais um capítulo. O toque especial da nova coda da melodia e a ênfase em instrumentos de sopro do arranjo para este trailer deram nova vida ao adorado tema musical, que reproduzi até à exaustão antes e depois de publicar A Era da Ruína. Uma aventura absurda e cheia de humor sobre piratas não é propriamente o melhor acompanhamento para o rasto de destruição dos Filhos do Caos, mas assim foi.